3% | 1ª Temporada


Quando a Netflix anunciou que começaria a investir em conteúdo original produzido em nosso País, muito se especulou sobre que tipo de produto seria. Eis que, em 2016, foi lançado o projeto intitulado de 3%.

Baseada num piloto de uma possível web série criada por Pedro Aguilera (Historietas Assombradas), a trama gira em torno de pessoas que adentram ao que os organizadores chamam de "Processo", que nada mais é do que uma grande seleção, onde todos que completam 20 anos adentram e participam de provas, a fim de testar seus conhecimentos e aptidões físicas para ascender áquilo que os competidores chamam de "Maralto", um lugar elevado, onde pode se viver com dignidade.

Enquanto rola essa seleção, existe um grupo designado a acabar com essa dicotomia imposta pelos habitantes do Maralto, chamada de "Causa", onde os envolvidos conseguem se infiltrar e vão para o Processo gerar tumulto e discórdia. Se você acha que o pessoal do Maralto é todo certinho e nada de errado acontece por lá, sinto muito em desapontar, mas também existe gente interessada em ver o Processo, gerenciado por Ezequiel (João Miguel), ir pro vinagre.

3% possui um roteiro interessante, mas é enfraquecido por algumas conveniências impostas para que a trama seja mais atrativa ao público. Formações de casais para que a série assuma uma identidade mais "Jogos Vorazes", por exemplo, fazem com que a produção perca o foco e a relevância em muitos momentos. Outro exemplo é a falta de impactado da Causa, já que em nenhum momento vemos algum grande conflito, ou perturbação da ordem estabelecida, o que é justamente a proposta do movimento.

Foto: Pedro Saad / Netflix

A série propõe a discussão de temas relevantes como meritocracia, a utopia gerada a partir da castração química, ou mesmo o grau corrupção que está instalado em todos os níveis da sociedade. No entanto, em meio a uma narrativa arrastada e sem grande envolvimento, fica difícil o impacto junto ao espectador.

Não serei injusto de dizer que alguns personagens não causam uma simpatia, muitas vezes devido ao mistério que escondem, como Joana (Vaneza Oliveira) e Rafael (Rodolfo Valente), por exemplo. Agora, quem soube esconder o jogo desde o inicio foi Michele (Bianca Comparato), pois se no início a enxergamos como sonsa e sem carisma, com o passar dos episódios acaba mostrando que tem muitos tons de cinza, mesmo que sutilmente.

Os efeitos visuais são discretos, muito em função do baixo orçamento, utilizados principalmente para trazer um aspecto futurista a ambientes como a grande colina (onde o Processo é realizado), ou mesmo em aparatos tecnológicos.

Vale destacar também a fotografia em sépia, que é quebrada justamente pelas cores dos figurinos dos personagens que estão na seleção, criando um contraste proposital e interessante. No Continente, por exemplo, os figurinos lembram muito Mad Max, com pessoas vestindo farrapos e com adornos pendurados. Já no lado do Maralto, as roupas são mais bem alinhadas, sem rasgos e com um design clean.

Foto: Pedro Saad / Netflix

3% é uma série com potencial gigantesco, mas que peca por não direcionar seu foco para as discussões que são realmente relevantes, dando menos destaque nas várias subtramas paralelas que são pouco desenvolvidas, sem impacto e com personagens sem carisma. Se a produção quiser continuar sobrevivendo, é preciso evoluir.  é bom corrigir os rumos que tomou a fim de impactar e gerar o mínimo de identificação e empatia, do contrário correrá o risco de cair no esquecimento, assim como aconteceu com Everything Sucks, por exemplo. A segunda temporada está aí para nos dizer, ou não.

Bom

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