3% | 2ª Temporada


A 1ª série brasileira da Netflix possui uma trama similar a de futuros distópicos como Jogos Vorazes e recebeu boas críticas do público e da crítica internacional. Porém, houveram aspectos intrínsecos no núcleo de 3% que fizeram muitos questionarem se a série merecia uma segunda temporada.

Passou um ano desde o processo nº 104, onde Michele (Bianca Comparato) e Rafael (Rodolfo Valente) ascenderam para o Maralto, uma sociedade utópica, aparentemente perfeita, onde há fartura, prosperidade e possibilidades inexploradas. Já na sua contraparte, o Continente, está assentado sobre um "barril de pólvora", onde as condições são extremamente precárias, parecendo ser uma das maiores favelas da história.

O maior responsável pelo grupo A Causa foi preso e, em poucos dias, será realizado um novo processo. Michele ainda quer tirar seu irmão André do Centro de Tratamento e provar que o mesmo não é culpado do "1º assassinato da história do Maralto". Em meio a isso, Fernando (Michel Gomes) acaba se aliando A Causa (involuntariamente), junto de Joana (Vaneza Oliveira), ao passo que Rafael tenta contato com o grupo a fim de ajudá-los a acabar com o Processo de uma vez por todas.

Além de também revelar alguns detalhes sobre como o Maralto foi fundado, e que lá já existia corrupção (óbvio, do contrário não seria o Brasil, não é mesmo?), temos explicações de como o Continente se afundou tanto. Em meio a isso, Marcela (Laila Garin), a chefe de segurança rígida e implacável está desconfiada de tudo, principalmente de Ezequiel (João Miguel), e fará o possível para não interromper o andamento do Processo, mesmo que tenha de recorrer a forças drásticas.

Foto: Pedro Saad / Netflix

O grande problema da segunda temporada de 3% seguem sendo as subtramas, que mais parecem estar presentes para render episódios do que para fazer a narrativa caminhar. Algumas são imperdoáveis, como Fernando tentando convencer sua amiga Glória (Cynthia Senek) a desistir de entrar no Processo. Isso sem mencionar os eventos com Marco, que tem seu potencial pouquíssimo explorado. Ou seja, nada muito diferente da maioria das séries já existentes do serviço, com o intuito apenas de entregar uma cota mínima de episódios por ano.

Um aspecto positivo da série é privilegiar a relação olho no olho, muito diferente do que aconteceu no ano anterior, quando víamos personagens conversando, quase que o tempo inteiro, através de telas dos dispositivos, distanciando e dificultando ainda mais a afeição do público para com eles.

Outro ponto interessante é o cuidado com a direção de arte. Na cena onde é realizado uma espécie de mini carnaval antes do Processo, as esculturas cheias de fitas, feitas de madeira, similar aos bonecos de Olinda, são bem caprichadas. 



A fotografia, por outro lado, peca ao registrar planos abertos que ressaltam a grandiosidade dos locais, mas acabam não sendo nada funcionais, principalmente na cena onde vemos o Maralto por completo, onde, por cima das cabeças dos personagens, milhares de pequenos drones sobrevoam o local. Os efeitos digitais parecem artificiais em demasia, com erros crassos como falta de sombra de objetos, por exemplo.

Foto: Pedro Saad / Netflix

No elenco, quem se destaca é Rodolfo Valente (Malhação), que consegue transitar entre um personagem confiável e um traidor, sem transparecer suas reais intenções. Laila Garin (Sob Pressão), por sua vez, se mostra uma força a ser temida desde o inicio, brilhando no momento em que realiza um dos atos mais frios da série. Já Vaneza Oliveira (Chuteira Preta) rouba a atenção do espectador sempre que está em cena.

O elo fraco fica por conta de Cynthia Sanek (Malhação), que tenta, sem sucesso, dar alguma profundidade a sua personagem unidimensional e desinteressante. No caso de Bianca Comparato (Morto Não Fala), não há muito a dizer, já que o roteiro torna sua personagem óbvia a todo momento, mesmo quando deveria enganar os outros.

3% não está entre as melhores produções nacionais, longe disso, mas ainda vale o tempo investido para assisti-la, especialmente pelos questionamentos que traz consigo. Temas como a preservação dos recursos naturais, ideais filosóficos inalcançáveis, utopias impossíveis de serem concretizadas e como a verdade é sufocada para o "bem maior" de todos. Premissas sempre interessantes de serem discutidas.

Bom

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