CRÍTICA | A Câmera de Claire


Direção: Sang-soo Hong
Roteiro: Sang-soo Hong
Elenco: Isabelle Huppert, Min-hee Kim, Mi-hee Chang, entre outros
Origem: França / Coréia do Sul
Ano: 2017


Munido de uma narrativa descontínua que converge para o equilíbrio e transmite veracidade ao espectador após a captação das reações dos personagens com uma câmera estática, o diretor sul-coreano Hong Sang-soo (Na Praia à Noite Sozinha) nos apresenta A Câmera de Claire (La Caméra de Claire), seu mais novo longa, que traz a proposta de levar o público a uma importante jornada de autoconhecimento em um exercício de metalinguagem.

A narrativa se passa nos bastidores do Festival de Cannes, no qual uma equipe cinematográfica da Coréia do Sul se reúne para exibir um filme. Somos apresentados a Manhee (Kim Min-hee), assistente de produção; e Nam Yanghye (Mi-hee Chang), chefe da produtora; que posteriormente se encontra com o diretor Soo Wansoo (Jin-young Jung), que possui compulsão por bebidas.

Em um cenário que normalmente serviria para confraternização, Manhee acaba demitida, sem saber exatamente o motivo. Em seguida surge Claire (Isabelle Huppert), fotógrafa, escritora e poetisa. Ela possui uma máquina fotográfica Polaroid, daquelas antigas mesmo, na qual registra diversas paisagens e sentimentos das pessoas que cruzam seu caminho. É claro que, eventualmente, Claire acaba por conhecer Manhee, e desse encontro nasce uma amizade instantânea.

Foto: Pandora Filmes

A metalinguagem que citei no início se justifica quando Claire explica que fotografa objetos e pessoas para mostrar que nós somos suscetíveis a mudanças, de forma que nunca seremos as mesmas pessoas que fomos quando a foto foi tirada. São memórias de momentos que deixarão de existir. Pode parecer tolo, mas esse simples monólogo ganha contornos filosóficos que fazem o espectador refletir e enxergar os encontros de Claire com os sul-coreanos de outra forma. Muitos dos momentos registrados pela fotógrafa serão peças-chave nos quebra-cabeças que a narrativa traz, como compreender as intenções e as personalidades de cada personagem, ou mesmo a verdadeira razão para Manhee ter sido dispensada de seu emprego.

As atuações aqui transmitem verdade ao espectador, tudo com muita naturalidade. As transformações são constantes e os encontros entre os personagens, nas mais diversas ocasiões, soam diferentes, pois o estado de espírito de cada um está em constante mutação. 

A Câmera de Claire é sinônimo de alegoria, bem como um exercício para cada um de nós. Serve como auto-avaliação, para compreendermos e aceitarmos nossas mudanças e nosso papel no mundo, sempre buscando a nossa melhor versão para poder fazer a diferença. Um longa-metragem que soa como poesia e também como libertação, uma obra que vai além da tela.

Ótimo

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