CRÍTICA | Desobediência

Direção: Sebastián Lelio
Roteiro: Sebastián Lelio e Rebecca Lenkiewicz
Elenco: Rachel McAdams, Rachel Weisz, Alessandro Nivola, entre outros
Origem: Reino Unido / Irlanda / EUA
Ano: 2017


Após despontar mundialmente como diretor de um dos melhores filmes do ano passado, Uma Mulher Fantástica (Una Mujer Fantástica), centrado em uma narrativa intensa e interna de uma mulher transsexual desviando de todos os cacoetes da maioria das obras com temática, nada mais orgânico que uma irremediável expectativa para o novo trabalho de Sebastián Lelio (La Sagrada Familia).

Causando rebuliço desde seu debute no Festival de Toronto, Desobediência (Disobedience) entra no olhar de Ronit Krushka (Rachel Weisz), para então visitar ao seu lado a cidade que deixou em seu passado, lugar de profunda tradição judaica-ortodoxa, em função do luto pelo seu pai, um rabino amado pela comunidade.

De se destacar dos primeiros minutos é que antes mesmo de sermos convidados ao olhar de Ronit, somos introduzidos ao último sermão na sinagoga do Rabino Krushka (Anton Lesser), que avalia o homem como síntese da dualidade entre o anjo (nobreza de propósito, indesviável de seu desígnio) e a besta (pulsão de vontades, desejo e instinto) para fatalmente alegar que a desobediência é algo concedido pela divina providência.

Foto: Sony Pictures

Esta fala inicial estabelece a atmosfera psicológica pela qual o filme passeará pelas próximas duas horas, definindo assim o ponto de partida, mas também entregando ao espectador o ponto de chegada. Desobediência define a insubmissão a leis e códigos determinados, portanto, para que ocorra o ato, é pressuposto que haja uma conduta assimilada e então rompida. A recepção canhestra que Ronit recebe ao retornar à cidade já deixa claro como ela, de alguma forma, transgrediu procedimentos canônicos. Logo descobrimos as nuances dessa culpa e como se entrelaçam com sua amiga de infância, Esti Kuperman (Rachel McAdams), com quem sempre nutriu sentimentos viscerais.

Talvez até pela potência do discurso político na trama, surgem muitos formalismos na linguagem. Todo o primeiro ato sendo constituído por um passo a passo de filmes independentes-intimistas-lentos, enquanto os diálogos dos personagens chegam truncados e sutilmente expositivos. Fica uma sensação de ansiedade imiscuída no ar, onde as imagens querem respirar, mas os personagens correm para que cheguemos de fato aos "porquês" da estória.

Felizmente a obra só cresce a cada ato. Esti divide o protagonismo com segurança, elaborando junto de sua parceira uma relação entre mulheres onde homem algum é capaz de adentrar ou compreender,. Um envolvimento cândido e faminto que se traduz com perfeição na sequência sexual que marcou os espectadores de Toronto. Cada sequência entre Rachel Weisz (O Lagosta) e Rachel McAdams (A Noite do Jogo) é um espetáculo de química a parte e a câmera, respeitosamente, busca espaço que comporte essa potência enquanto está atenta para os olhares alheios, para alguma brecha dessa oponente que é a própria cidade. É um pique de aventura enquanto elas tem de encontrar lacunas urbanas onde possam invadir, se invadir, se misturar, onde passem despercebidas pelos muros sociais que as constrangem usando dos muros de concreto para se beijarem em segredo e consumarem seu delito.

Foto: Sony Pictures

A questão da desobediência, em seu valor semântico, desponta à medida que entendemos como nenhuma das duas tem a religião como sua inimiga Não se trata de uma batalha contra o sagrado, mas contra seus dogmas, e o paradoxo dessa diferença é que delineia tão cuidadosamente as contradições das personagens. Esti está presa em um casamento indesejado, mas não odeia o marido, não condena a religião. Ela está emocionalmente envolvida e crê em sua fé com honestidade, mas igualmente crê em sua humanidade e precisa encontrar e exigir sua liberdade neste cenário. 

É neste crescendo que temos um terceiro ato carnal, vívido e tremulante. Em um momento chave do personagem de Alessandro Nivola (O Mago das Mentiras), o foco da câmera está tão fechado que seus passos errantes o tiram e poem seu rosto inseguro da nitidez para sermos consumidos pela incerteza do que virá a seguir, tanto para ele quanto para nós. Essa jornada de ambas não é um confronto com o místico de suas religiosidades, mas muito mais complicado que isso é a demanda justa que fazem por sua liberdade dentro desses valores. O título não poderia ser uma escolha mais precisa para essa trajetória.

Ótimo

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