CRÍTICA | Oito Mulheres e um Segredo

Direção: Gary Ross
Roteiro: Gary Ross e Olivia Milch
Elenco: Sandra Bullock, Cate Blanchett, Anne Hathaway, Helena Bonham Carter, Rihanna, Sarah Paulson, Mindy Kaling, entre outros
Origem: EUA
Ano: 2018


O conflito inevitável a qualquer obra afilhada de uma predecessora é tanto prestar tributo à sua origem quanto se desvencilhar dela o bastante para obter sua legitimidade enquanto objeto isolado. A princípio é incerto ao expectador se Oito Mulheres e um Segredo (Ocean's 8) será capaz disso ou mesmo que se interesse em sair da zona de conforto em reproduzir religiosamente os procedimentos do filme de Steven Soderbergh (Magic Mike). A sequência inicial idêntica em conteúdo, mas meramente adequada à mudança do gênero em destaque é a principal razão para este receio que, gratamente, logo se dissipa em meio a uma montagem dinâmica que acerta boa safra das deixas cômicas.

O filme não encontra uma linguagem própria que qualifique sua narrativa dentro do oceano de obras do subgênero assaltos/estratagemas do qual, ironicamente, seu antecessor foi grande marco apesar de ter envelhecido mal ao crivo popular. Em contrapartida o longa garimpa sua particularidade justamente onde Onze Homens e um Segredo (Ocean's Eleven, 2001) fracassa diante da leitura que nos permite nossa época: o sexismo. 

Esta primeira película não é só o famigerado suprassumo da fantasia masculina estadunidense suprema (homens elegantes, astutos para jogos de azar, vencedores numa disputa fálica com um rival de poder) no mundo moderno (vale constar seu lançamento justamente no primeiro ano do século XXI) como uma reafirmação contemporânea de preceitos sociais conservadores, por mais progressivas e despretensiosas que suas cenas de assalto sugiram ser. Como natural desta manutenção do status quo ocidental, a única mulher presente na narrativa (personagem de Julia Roberts) exerce a função de troféu e existe para ser disputada entre homens de poder, se entregando aos braços daquele que superar as provações do embate por ela. Uma mitologia suntuosa que embalou séculos da jornada norte-americana, mas que cada vez encontra menos poder.

Foto: Warner Bros Pictures

Sabendo se alimentar dessas deixas, o novo filme de Gary Ross (Jogos Vorazes) argutamente lança boas indiretas a ele, como em momento que a protagonista Debbie Ocean (Sandra Bullock) recusa a possibilidade de um integrante masculino em seu plano, pois homens chamam atenção e mulheres passam despercebidas. Há preocupação para que as referências à primeira obra, sendo a própria protagonista irmã do personagem vivido por George Clooney (Amos Sem Escalas), agradem fãs de bagagem, mas de forma alguma danifica a experiência do novo espectador. Ponto positivo.

Ciente também do apelo ao seu público feminino, Oito Mulheres e um Segredo não se poupa de usar do humor sobre a inversão de papéis aplicada, onde mulheres tem todo poder e as figuras masculinas soam absolutamente ineficientes ou bobas, mas também do star system que monta. Aos não familiarizados com o termo, star system é a nomenclatura para um sistema de fidelidades entre atrizes/atores e produtoras que então regiam todas as esferas da vida de seus atores. Isso se deu porque rapidamente se percebeu a sedução hipnótica do status de celebridade.

Ao juntar Anne Hathaway (Os Miseráveis), Cate Blanchett (Blue Jasmine), Helena Bonham Carter (O Discurso do Rei), Sandra Bullock (Um Sonho Possível), Rihanna (Bates Motel), Awkwafina (Vizinhos 2), Mindy Kaling (The Office) e Sarah Paulson (The Post: A Guerra Secreta) - também ficou sem fôlego lendo? - o filme se dedica muito pouco a qualquer construção de personagem que ultrapasse alguns estereótipos como gracejos, e cabe à direção meramente criar terreno para que esse leque de atrizes esteja confortável para esbanjarem todo o seu carisma ao público.

Foto: Warner Bros Pictures

A sedução é inicialmente deslumbrante e de fato os melhores momentos são trocados entre elas, pena que a própria obra não pareça perceber totalmente isso, visto que tais sequências são poucas. Consciente de que a força publicitária do filme estava em apresentar mulheres já adoradas pelo público protagonizando falas ótimas e empoderamento, simplesmente não é apresentado qualquer desafio para a jornada delas, nem o que inicialmente surge como uma ameaça para o desencadeamento do plano significa qualquer preocupação, o que elimina todo e qualquer senso de urgência que daria ritmo a obra. Fica a cargo da montagem encontrar esse ritmo, todavia, nem ela consegue conciliar algumas cenas ou mudanças de contexto por priorizar esse frenesi do subgênero. 

Por fim, Oito Mulheres e um Segredo acaba sendo apenas um hang out entre ótimas atrizes. Um encontro deliciosíssimo, mas que subestima o público com o qual conversa, não ousando perturbá-lo de seu conforto nem por um momento com qualquer complexidade maior. Ainda que o vestido da Rihanna aqui seja uma obra de arte à parte.

Bom

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