CRÍTICA | Vá e Veja

Direção: Elem Klimov
Roteiro: Elem Klimov e Ales Adamovich
Elenco: Aleksey Kravchenko, Olga Mironova, Liubomiras Laucevicius, entre outros
Origem: Bielorrússia / Rússia / Alemanha
Ano: 1985


Filmes que abordam guerras reais se tornaram atrativos para aqueles que são amantes da história e gostam de uma narrativa bem contada em torno dos conflitos. Em Hollywood geralmente são produzidas obras que exaltam o nacionalismo norte-americano, a ascensão e compensação da vitória do herói, temática bastante encontrada nos "filmes de Oscar". Vá e Veja (Idi i smotri, 1985), longa-metragem bielorusso dirigido por Elem Klimov (A Despedida), não se equipara com nenhuma dessas características apresentadas, e justamente por isso é mais importante do que pensamos.

A trama nos apresenta a um garoto, Florya (Aleksei Kravchenko), que é recrutado por uma guerrilha na Bielorrúsia, em 1943, para o enfrentamento dos nazistas na Segunda Guerra Mundial. Logo de início, avistamos um menino que sempre almejou estar em uma guerra, matar nazistas, avistar um combate e enfrentá-lo de imediato, custe o que custar. A alegria no rosto de Florya é de um entusiasmo único, o que o leva a encarar qualquer obstáculo para auxiliar seus amigos guerrilheiros, deixando toda a família e seu vilarejo para trás.

O momento de ruptura dessa fantasia ilusória para com a realidade nua e crua, é quando o garoto faz uma nova amizade com uma jovem, Olga (Glasha). Ao descobrir que os alemães estão prestes a atacar a região onde estão instalados, os dois são deixados para trás. E é exatamente nesse posto que a perspectiva do protagonista se modifica.

Foto: Divulgação

O roteiro passa então a dificultar e muito a sobrevivência dos dois. O bombardeio na selva onde estavam é enorme, destacando-se o perfeito  trabalho de mixagem de som da obra. Nota-se nesse instante como a agonia de estar presente em um campo de batalha parece real ao espectador. Florya se encontra em desespero e, como ponto de escape, volta ao vilarejo para encontrar sua família, se deparando com um local vazio, devastado pelos nazistas que por lá passaram.

A narrativa é um reflexo das emoções enfrentadas pelo protagonista. Da felicidade exacerbada ao declínio emocional, o garoto passa a vagar sem rumo pelas terras da Bielorrúsia. A destruição contra seu país é evidente e sua face estampa o choque de tudo que vivencia, desacreditando no que esta diante de seus olhos.

Evidentemente a guerra não é uma fantasia em que apenas um lado sai vencedor, e Vá e Veja mostra tudo isso com crueza. Uma população que encara o medo do conflito com uma angústia que é transpassada na tela de maneira dolorosa. O extremismo empregado pelo partido nazista, bem como sua ideologia racista e preconceituosa, também são registradas de forma bruta. Uma das cenas mais impressionantes, chegando ao ponto de ser difícil de assistir, é quando os alemães chegam em um vilarejo e começam a exterminar as pessoas que lá habitam. Fica explicito ao assistir o filme que o terror psicológico criado pelos nazistas nunca sai da cabeça daqueles que sofriam o impacto da guerra.

Klimov aqui não busca apontar um país ou aliança vencedora, e sim a forma como as ideias distorcidas da mente humana podem culminar em sua própria destruição. O desejo do homem em estar acima de tudo e de todos, o querer de uma nação em aumentar o seu território e a ideia do capitalismo e seus reflexos dentro da sociedade como modo de transformação.

Foto: Divulgação

O ato final da obra é um espetáculo à parte, onde os valores são invertidos. O diretor mostra ao espectador a mudança das pessoas de acordo com um sistema que o motiva a querer modificar algumas de suas características? Ou a ideia é mostrar que a vivência do protagonista e dos demais envolvidos serão impossíveis de apagar da memória? Fica a critério de cada um que assiste.

Excelente

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