CRÍTICA | Vidas à Deriva

Direção: Baltasar Kormákur
Roteiro: Aaron Kandell, Jordan Kandell e David Branson Smith
Elenco: Shailene Woodley, Sam Claflin, entre outros
Origem: EUA / Hong Kong / Islândia
Ano: 2018


Eis um filme que poderia facilmente se encaixar no esteriótipo “romance clichê de personagens perdidos no meio do nada”, mas Vidas à Deriva (Adrift) surpreende positivamente, contando uma bela história de uma forma diferente e muito bem-vinda. A obra, aliás, é baseada em um livro, mais precisamente um registro de uma tragédia real, escrito pela própria vítima, Tami Ashcraft. Shailene Woodley (Big Little Lies), percebendo o potencial da história, comprou a ideia e produziu seu primeiro longa-metragem, assumindo também o papel de protagonista.

Tami (Woodley) é mulher forte e de espírito livre, que saiu do conforto de sua casa em San Diego, Califórnia, e decidiu se aventurar pelo mundo. Quando chega ao Taiti, não imaginava a reviravolta que sua vida tomaria. Enquanto trabalhava no píer local, conheceu o velejador britânico Richard Sharp (Sam Claflin), e no maior estilo “amor à primeira vista” os dois acabam se apaixonando.

Juntos eles decidem cruzar oceanos com destino a cidade natal de Tami, afim de conhecer sua família. O que eles não contavam, porém, é que em seu trajeto fossem cruzar com o Furacão Raymond. Com ondas imensas e ventos avassaladores, o barco acaba virando inúmeras vezes até ficar parcialmente destruído, à deriva. Quando Tami acorda, horas depois, se encontra no meio do caos estabelecido, buscando por seu amado e lutando para sobreviver, sem qualquer perspectiva de resgate.

Foto: Diamond Films

A obra abre de maneira impactante. Em uma plano-sequência que tem inicio no mar, vemos a protagonista desacordada. Enquanto emergimos, metade fora e metade dentro d’água, percebemos a parte interna do barco e os estragos causados pela tempestade. Entre rangidos, ventos e movimentos da intensa maré, podemos perceber também o cuidado com a espacialidade sonora.

Dotado também de uma bela fotografia, o filme ganha destaque em cenas de flashback, quando vemos o casal curtindo todos os aspectos da viagem antes do acidente. A imensidão do oceano, a beleza das ondas quebrando no veleiro e o pôr-do-sol vivenciado por duas pessoas apaixonadas são elementos encantadores e que fazem toda a diferença na construção da narrativa.

Outro ponto relevante é o trabalho de maquiagem, que emula com competência ferimentos, fraturas e desgastes imensos na pele dos protagonistas devido a inevitável exposição ao sol. Tal aspecto somado ao emagrecimento de Woodley, que perdeu peso para o papel, trazem a angústia necessária para todas as cenas à deriva, algo indispensável para que o filme funcione.

O diretor Baltasar Kormákur (Evereste), é bom dizer, parece se especializar nesse tipo de cinema catástrofe mais humano, criando ótimos momentos, a grande maioria sem a utilização de diálogos. A cena do acidente em si chega a dar medo quando, imersos na narrativa, nos deparamos com a imensa onda que ataca o barco. A forma como Kormákur filma a sequência, do o impacto ao momento em que Tami sobrevive, é admirável.

Foto: Diamond Films

Evidentemente Shailene Woodley se apresenta como a "alma" do longa. Seguindo sua ótima acensão como atriz, a garota nos entrega uma performance visceral, tamanho seu empenho para o papel. O medo, a angústia e o cansaço da personagem são facilmente sentidos por quem assiste à luta de Tami  em suportar tudo o que se que se segue.

Sam Claflin (Como Eu Era Antes de Você), por sua vez, tem mais espaço quando os dois ainda estão em terra firlme, mostrando uma persona encantadora, envolvente e apaixonante, algo que o ator tem se habituado a fazer. E como o roteiro não exige muito além disso de seu personagem, ele acaba se destacando por sua química com Woodley. A forma como o relacionamento é construído soa natural e funcional, e os atores conseguem passar veracidade em tela.

Vidas à Deriva não inova em sua proposta. Todos os elementos presentes na narrativa são velhos conhecidos do público. O período à deriva traz o perigo da monotonia indesejada ao espectador, porém esses momentos não tiram o interesse na história, visto que o vai e vem de linhas temporais acaba funcionando bem. Trata-se de um filme pautado na realidade, como toda boa história baseada em fatos deve ser. Uma produção satisfatória, que guarda espaço para boas surpresas e um desfecho mais emocionante do que estávamos preparados para receber.

Bom

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