CRÍTICA | A Moça do Calendário


Direção: Helena Ignez
Roteiro: Helena Ignez
Elenco: Djin Sganzerla, André Guerreiro Lopes, Mário Bortolotto, Zuzu Leiva, entre outros
Origem: Brasil
Ano: 2017


A Moça do Calendário, da cineasta Helena Ignez (Luz nas Trevas: A Volta do Bandido da Luz Vermelha), baseia-se em um roteiro original escrito em 1987 por Rogério Sganzerla (O Signo do Caos). A obra aborda as diversas crises internas de um protagonista e as eventuais alternativas que possui para fugir dos problemas do cotidiano. Uma história capaz de fazer o espectador viajar pelos pensamentos de seu personagem, ao mesmo tempo que faz refletir sobre a realidade ali retratada.

Inácio (André Guerreiro Lopes) trabalha em uma oficina mecânica durante o dia e como dublê de dançarino à noite. Quando não está consertando veículos ou presente nas pistas, seus pensamentos se voltam para o relacionamento platônico que possui com uma bela mulher que estampa o calendário da oficina (Djin Scanzerla). Inácio vive duas utopias: a de encontrar sua amada e a de viver em uma sociedade sem desigualdades sociais, diferente do capitalismo.

É possível notar claras referências ao cinema marginal, como uma espécie de subversão da linguagem cinematográfica em detrimento do ativismo político, além do sarcasmo em relação aos instrumentos de poder. Discursos como a possível volta de Lula em 2018 e o lançamento de um “projeto de ética na política”, são apenas alguns exemplos de frases sarcásticas que o roteiro faz questão de utilizar. Não há meio termo no discurso apresentado, algo costumeiro nas obras nacionais da década de 80 e que servem contraponto para a realidade vivida atualmente pelos brasileiros.

Foto: Pandora Filmes

Em A Moça do Calendário é percebida uma constante luta de classes, em especial dos menos favorecidos, como a ausência de lamento pelo quadro econômico e social atual. O longa procura fazer um protesto em relação à desigualdade, mas busca transmitir ao espectador que a vida é feita de sonhos, e que vale a pena aproveitar todos os momentos que ela oferece, mesmo que isso signifique  fracassar em algumas oportunidades.

A escolha pela utilização de câmera na mão, acompanhando o protagonista e captando suas reações, serve tanto para retratar seu estado de angústia como sua inclinação para ideais revolucionários, o que é percebido do segundo para o terceiro ato da narrativa, quando resiste em defender os ideais de reforma agrária.

A fotografia em preto e branco dá o tom onírico proposto pela obra, marcando uma passagem de tempo lenta e repleta de incessantes broncas do patrão do protagonista, que renunciou às riquezas da família para viver como um assalariado. E é justamente nos momentos em que vemos a moça do calendário, trajada com seu belo vestido vermelho, é que as cores voltam a conversar com o espectador.

Foto: Pandora Filmes

O resultado final é satisfatório. Um filme retórico, didático, recheado de metáforas e números musicais que representam momentos aparte da vida atormentada do protagonista. Um longa-metragem que transita entre a realidade e a fantasia, o onírico e o racional, flertando com o teor filosófico e também político, que poderia ter sido mais bem explorado. Uma ode aos seres humanos e a vida.

Bom

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