CRÍTICA | No Coração da Escuridão

Direção: Paul Schrader
Roteiro: Paul Schrader
Elenco: Ethan Hawke, Amanda Seyfried, Cedric the Entertainer, entre outros
Origem: EUA
Ano: 2017


Eu amo filmes que colocam em análise a natureza de nossa existência e as emoções individuais perante a sociedade. No Coração da Escuridão (First Reformed) detalha calculadamente e sem pressa nenhuma, estágios e conflitos conturbados que podem resultar em alguma modificação positiva ou negativa.

Paul Schrader (Cães Selvagens), reverenciado por seus roteiros em Taxi Driver (1976) e Touro Indomável (1980), analisa as perspectivas do homem contra o meio, e o reflexo de suas características em seu bem estar. Em seus trabalhos como diretor, especialmente em O Dono da Noite (1992) e Gigolô Americano (1980), Schrader revela em seus atos finais a realidade promíscua de seus protagonistas, que necessitam sempre de uma divindade que os acolha e cuidem de si, o que talvez pode ser encarada também em No Coração da Escuridão, apesar do desfecho que dá margem para reflexão.

A obra acompanha o reverendo Toller (Ethan Hawke), um pastor que cuida da igreja mais antiga da região, a primeira restaurada, que intitula o longa. De início, acompanhamos um personagem calmo e realizado com suas percepções religiosas. Até certo ponto, não se conhece o passado do reverendo, até que o mesmo passa a ter conversas particulares com o casal Mary (Amanda Seyfried) e Michael (Philip Ettinger), que assa por problemas. A mulher se mostra preocupada com os pensamentos extremistas do marido, principalmente agora que está gravida. Em suas conversas, o reverendo descobre que Michael é um ativista que luta contra o impacto das grandes corporações no meio ambiente, se deixando levar pelas questões levantadas pelo rapaz, algo que o deixa confuso com a natureza de sua religiosidade.

Foto: Divulgação

O mais interessante aqui é a maneira com que o diretor desenvolve a narrativa sem pular estágios. Percebe-se que, independentemente de razão ou circunstância, os métodos do reverendo poderiam causar conflitos, mas tudo é trabalhado de forma vagarosa e com questionamentos que revisam os dois lados da moeda, até que inevitavelmente tudo venha a calhar. Mesmo sem saber o resultado de tudo aquilo, a preparação fixa o espectador em tela, algo essencial em um trabalho como esse.

No que diz respeito a aspectos técnicos, é preciso destacar a trilha sonora, que aparece pontualmente durante o longa, apenas em momentos em que ocorrem quebra de paradigmas e mudanças nos conceitos do reverendo, tudo propagado pela consciência de sua mente. O fato da obra ser narrada em primeira pessoa desencadeia ainda mais essa reflexão que o protagonista passa.

Michael, com sua fé e esperança em processo de destruição, acaba se tornando o "objeto de estudo” do reverendo, que tenta de todas as formas encontrar um caminho para que o rapaz possa seguir. O que dificulta todo o processo é que o próprio reverendo encontra-se perdido em seus dilemas pessoais, talvez por tentar se colocar em uma zona de conforto quase inatingível. O abalo de sua rotina se torna uma ruptura gigantesca, fazendo com que a culpa de fantasmas do passado sejam jogadas em suas costas. Michael então passa a ser o temor de um peso futuro.

O filme é hábil em mostrar como nenhuma realidade é perfeita, e que nem mesmo a ciência pode explicar certos acontecimentos que desencadeiam em nossas vidas. E, nesse ponto, a confusão mental do protagonista é retratada de forma eficiente com a câmera rente a sua face, exemplificando a prisão em que se encontra.

Foto: Divulgação

Evidentemente não darei mais detalhes para não estragar eventuais "surpresas", mas o ato final é um show a parte, reunindo todos os temas discutidos ao longo da projeção em um desfecho impactante. É confortante de certa maneira? Talvez. Pode um homem mudar o percirso da realidade? Talvez. A espiritualidade está em análise? Sempre. E é assim que No Coração da Escuridão coloca a filosofia de nossa existência em confronto com nossos ideais.

"Irá Deus nos perdoar?"

Excelente

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