BoJack Horseman | 5ª Temporada


Sempre que uma série ganha visibilidade é normal que ela seja renovada com o decorrer dos anos. Acontece que, na maioria delas, os episódios vão ficando menos interessantes, difíceis de serem assistidos, com a qualidade da produção em declínio. Com BoJack Horseman ocorre exatamente o contrário. A quinta temporada do famoso cavalo de “Horsin Around” é tão boa quanto as anteriores, trazendo seu humor inteligente, acoplado as realidades do dia a dia e descobrimentos pessoais de seus personagens.

Esse texto não é exatamente uma crítica, mas sim um passeio pelos problemas enfrentados por BoJack e sua turma, e como isso é muito bem trabalhado pelos roteiristas da série da Netflix.


Logo de início descobrimos que BoJack (Will Arnett) é protagonista de uma nova série de TV, chamada “Philbert”, onde ele contracena com Gina (Stephanie Beatriz), uma mulher fechada, que busca seu reconhecimento no ramo cinematográfico. Nesse ponto, o que mais anima é saber que a animação sempre traz novos personagens para substituir os clássicos, ou mesmo somar ainda mais no desenvolvimento da temporada. Além de Gina, o diretor dos episódios, Flip (Rami Malek), é um cara super depressivo, que acha que todas as suas ideias trarão resultado e que nada pode tocá-lo.

Foto: Netflix

Todd (Aaron Paul) é espetacular, e amo como os roteiristas trabalham o personagem. Todos sabemos como ele é puro, tem suas ideias malucas e sempre consegue um trabalho importante, mesmo sem saber como. Nessa temporada, por exemplo, ele se torna um chefe de setor do site que passa os episódios da série estrelada por BoJack, e consegue isso apenas “mentindo” em tudo que estava escrito em seu currículo. Esse novo trabalho se torna um desafio em sua vida, algo que já se tornou corriqueiro em sua trajetória. A forma como a série trabalha sua assexualidade é muito bem feita. Ele consegue uma namorada, não consegue ter relações com ela, conta seu estado, consegue novas amizades e até um grupo que passa pelo mesmo que ele. Por mais não habitual que seja, Todd vê a afetividade de uma forma diferente. E por que isso seria errado? Ficar com alguém que se importe com você da maneira que você é, se torna mais importante e amoroso, e espero que o personagem leve essa filosofia de vida adiante, a não ser que queira descobrir mais de sua própria personalidade.

Com exceção de Todd, Diane (Alison Brie) é a personagem que mais me agrada. Não por ela ser a pessoa mais cética do seriado, mas por ela apresentar defeitos profundos e até mesmo maiores do que os outros, e não conseguir encontrar uma cura para eles. Chega a ser impiedoso os acontecimentos em sua vida, nada parece melhorar, tudo acaba no fundo do poço. O episódio centrado em sua separação do Mr. Peanutbutter (Paul F. Tompkins) é espetacular. Ela se escondendo e buscando auxílio consigo mesma, cortando o cabelo e tentando encontrar uma nova Diane, para no final descobrir que nem tudo são certezas e acertos na vida, e que mesmo assim tudo sempre continua. É doloroso, mas também bonito. Bonito porque, após esse acontecimento, percebi uma mulher que, mesmo que não continue na melhor, eleva seu espírito pessoal e se encontra ainda mais forte (por mais que não pareça).

Como de costume, BoJack Horseman explora seus personagens da forma mais profunda possível, caminhando junto com assuntos importantes e polêmicos que envolvem nossa sociedade. É até engraçado, mas encontramos um BoJack lutando pelos direitos femininos em um episódio, mesmo que por interesse de marketing. Além do feminismo, assistimos a propagação das “Fake News” e como isso é fácil de ser construído e manipulado pelas grandes corporações, entrando na mente das pessoas e fazendo-as acreditar em tudo que assistem. Essas questões são tratadas sempre de forma muito engraçada, do jeito particular que a série sabe fazer. Sempre de forma muito atual e necessária.
Foto: Netflix

Vale destacar um aspecto técnico da série que sempre reparo, e que acho inteligente e engraçado. Tratam-se dos fundos de cena, que sempre contam algo implícito na trama. Por exemplo, o quadro em que o diretor coloca as suas ideias, as bizarrices que acontecem na junção homem + animal que a série traz, sempre fazendo alusão a alguma característica de certo personagem, ou até mesmo de algum momento atual de nossa sociedade, o que é bastante divertido.

Talvez o melhor episódio da temporada, juntamente com o segundo (centrado em Diane), seja o que BoJack faz um grande discurso, literalmente de 20 minutos, no dia da morte de sua mãe. É até complexo falar sobre, porque acontece muita coisa em um só momento. São tristezas e arrependimentos compartilhados por um filho que sempre sofreu com o mau ambiente que lhe cercava, com mãe e pai desacreditados de seu potencial, mas também um filho que não teve um colo maternal e que deseja isso de alguma forma em seu futuro e nunca teve. A vida é bem difícil, ainda mais pra alguém como BoJack. Talvez seja um meio de escapar um pouco da realidade, um espaço em que possa colocar toda a culpa do que veio a se tornar no presente. Mas sabe-se que não é bem assim que funciona, e que no final, você pode até estar escrevendo ou falando para alguém que não está entendendo tudo o que você deseja expressar.

Eu poderia detalhar todos os personagens e acontecimentos importantes da temporada, mas seria impossível. São tantas momentos que me sinto até um pouco depressivo ao escrever, o que chega a ser cômico. Tinha em mente que essa temporada tivesse sido menos obscura. Talvez uma história não pareça tão difícil de engolir ou de se absorver, mas, se pararmos pra refletir, é necessária até uma reabilitação para uma tentativa de melhora de sentimentos.

Excelente

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