CRÍTICA | No Portal da Eternidade


Direção: Julian Schnabel
Roteiro: Julian Schnabel, Jean-Claude Carrière e Louise Kugelberg
Elenco: Willem Dafoe, Rubert Friend, Oscar Isaac, Mads Mikkelsen, Emmanuelle Seigner, entre outros
Origem: EUA / França
Ano: 2018


O pintor holandês Vincent Van Gogh exerceu enorme influência na arte ocidental, ainda que tenha tido seu trabalho incompreendido em sua época, chegando a ser taxado de louco. Dentro desse contexto somos apresentados a No Portal da Eternidade (At Eternity's Gate), longa-metragem dirigido por Julian Schnabel (O Escafandro e a Borboleta) e que traz Willem Dafoe (Projeto Flórida) no papel desse brilhante artista, em uma desconstrução sensível de personagem, poucas vezes vista.

Nas aldeias de Arles e Auvers-sur-Oise, onde se refugiou em 1886 para fugir das pressões de Paris, Vincent van Gogh é tratado de forma gentil por uns e brutal por outros. Madame Ginoux (Emmanuelle Seigner), proprietária do restaurante local, sente pena de sua pobreza e lhe entrega um livro de contabilidade, que ele preenche fazendo desenhos. Seu amigo e artista Paul Gauguin (Oscar Isaac), após uma convivência intensa, se afasta. Seu amado irmão e negociante de arte, Theo (Rupert Friend), é inabalável em seu apoio, mas nunca consegue vender uma única pintura do artista.

Aqui as obras de Van Gogh funcionam como telas e poesias aos espectadores, que contemplam não apenas a sua percepção de mundo, como seus ideais. Partindo dessa proposta algumas frases soam marcantes, como "estar louco é o melhor estágio para se conseguir retratar alguma coisa" e "as pessoas não ligam para o artista, elas querem se ver retratadas nas telas". 

Foto: Diamond Films

A fotografia é belíssima, com imagens que dão a impressão de se moverem a uma velocidade tão dinâmica que permite diversas formas de interpretação. Vários estados de espírito do protagonista são percebidos com o auxílio de variadas cores, permitindo oscilações entre as sensações de agrado ou de incômodo. O espectador é inserido dentro da obra e tem a oportunidade de vivenciar todo o seu processo criativo. Como ele era um pintor expressionista e abstracionista, não retratava nada com realismo, razão pelo qual muita gente passou a não compreender e rejeitar seu trabalho.

No Portal da Eternidade retrata bem o estado de solidão e melancolia de seu personagem central, refugiado em uma região remota na França e com a baixa expectativa de vida da época. Algo refletido também em uma de suas principais obras, "Quarto em Arles", que o artista pintou à espera de seu amigo Gauguin. 

Dafoe demonstra sua entrega costumeira em um desempenho acima da média, que ilustra a sobriedade do protagonista em algumas ocasiões, bem como seus momentos de surto. Sua atuação transmite segurança e autenticidade, tornando crível sua transformação física e psicológica. Oscar Isaac (Star Wars: Os Últimos Jedi) também se destaca no papel de amigo, conselheiro e motivador de Van Gogh, que dizia que o mesmo "pinta tão rapidamente que seus quadros parecem esculturas". Tal consideração aponta que Gauguin talvez fosse um dos poucos que enxergavam o valor das obras daquele artista incompreendido.

Foto: Diamond Films

Uma obra instrutiva, contemplativa e motivadora. No Portal da Eternidade não apenas presenteia o público com as belas obras de arte de Vincent van Gogh, mas permite que tenhamos a real dimensão de quem foi aquele homem. Um artista incomparável até hoje.

Ótimo

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