CRÍTICA | Vox Lux

Direção: Brady Corbet
Roteiro: Brady Corbet
Elenco: Natalie Portman, Jude Law, Willem Dafoe, entre outros
Origem: EUA
Ano: 2018


Vox Lux é o nome do sexto álbum da artista Celeste (Natalie Portman/Raffey Cassidy), cantora pop que foi alavancada ao estrelato ao surgir na mídia como sobrevivente de um crime que abre o filme dirigido por Brady Corbet (A Infância de um Líder) numa sequência que só pode ser chamada de devastadora em sua elegância e monstruosidade formal.

Despontando para o mundo por meio de uma canção que canta em um velório, acompanhamos com a narração em off de Willem Dafoe (Projeto Flórida), as transições temporais com uma leitura esotérica que confere a todo o desenvolvimento fragmentado da trama um ar cânone, apesar de suas rupturas cronológicas (fastfowards intensos e agressivos, porém plácidos; saltos de anos na vida dos personagens) serem transgressões pagãs ao rito da oratória prometida.

Em um momento estamos na Europa, descobrindo suspeitas sobre a sujeira nas paredes dos clubes de música, promessas de rockeiros e drogas, apenas para no momento seguinte, o que parecia ser o início de uma "Jornada do Herói" do artista do apogeu à decadência (uma linha do tempo fetichizada pelo cinema e pela mídia), se pulverizar. E conhecermos a Celeste que sobrou de sua vida pública, algumas horas antes de uma apresentação de sua mais nova turnê. É apresentado tudo que há de ordinário em sua rotina preparatória, conversas com a filha, destemperos com pessoas ao redor, o enfrentamento consigo mesma e com jornalistas para determinar o que significa sua imagem.

Foto: Paris Filmes

Essa batalha pelo valor agregado do ídolo se complexifica quando um grupo de terroristas promove um massacre fantasiado com peças que remetem a um videoclipe icônico de Celeste. O filme percorre um lugar arenoso ao aproximar tão impetuosamente a artista pop do terrorismo, o que poderia tê-lo feito escorregar para a vala dos jargões bregas e estúpidos que condenam artistas e manifestações pop como fome moderna pela atenção e afeto virtualizados e decodificados em logaritmos. Como a própria protagonista declara em certo momento, se furtar de falar sobre algo não impede que este algo ainda exista, só torna o espectro de seu tabu mais poderoso.

De fato todos os elementos apresentados são partes do espetáculo e ocupam seus devidos lugares no palco. A dor de estar sempre dentro do ângulo de visão de todos se traduz em Celeste num trauma incurável em sua coluna, visível em seu andar e em toda sua compleição, trabalho de corpo que poderia ficar caricato ou grosseiro não fosse o talento único de Natalie Portman (Jackie) de unificar os excessos e as multiplicidades em uma natureza de personagem orgânica. É significativa também a participação de Sia como produtora do filme e das músicas apresentadas neste aspecto.

Ser elevada ao patamar de símbolo extingue sua humanidade, por mais severamente corriqueira que seja sua rotina, seus hábitos, suas histerias. Todos os momentos que o longa escolhe investigar sua protagonista (que chamará de Gênese e Regênese em nova alusão ao caráter bíblico de sua sacralidade codificada) são mundanos, são de carne. São a preparação para o show, mas um pavor imenso e irremediável dele também. Uma artista de tamanho foco se torna uma celebração para muitas pessoas que projetam nela sonhos, lembranças, desejos, mas também é o fardo de arcar com o que sua imagem pode vir a significar, principalmente quando é peremptório que ela justifique e afirme algo sobre um massacre que carrega referências a ela.

Foto: Paris Filmes

A arte pop pode condenar, mas pode salvar. Só que sua salvação é frágil, não opera na ordem da razão, mas em camadas superficiais dos sentidos. Seu imediatismo é uma intoxicação voluntária, um caminho para não pensar e se proteger ao recusar conjunturas da realidade. Uma anestesia.

A sobrecarga de imagens e rituais encontra um ritmo impecável em meio ao caos de suas estruturas que se misturam e se invadem, a informação mais veloz que o raciocínio, a imagem maior do que os olhos acompanham. A sequência final de Vox Lux, um espetáculo bem sucedido é a chave de ouro de um pesadelo luminoso.

Ótimo

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