CRÍTICA | A Esposa

Direção: Björn Runge
Roteiro: Jane Anderson
Elenco: Glenn Close, Jonathan Pryce, Max Irons, Christian Slater, entre outros
Origem: Reino Unido / Suécia / EUA
Ano: 2017


Ao ser premiada com o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme Dramático, Glenn Close (Albert Nobbs) premiou o público de volta com o ponto mais alto do evento: seu discurso sobre a realização pessoal das mulheres. Ovacionada de pé, com toda razão, Glenn segue uma estrada bem erigida para essa temporada de premiações. Não só sua performance é o carro que conduz sossegadamente toda a narrativa do filme A Esposa (The Wife) como se alia aos anos em que seu rosto figurou dentre as listas de curiosidade com as atrizes mais injustiçadas do Oscar. 

Joe (Jonathan Pryce) e Joan (Glenn Close) são um casal modelo da terceira idade que estão juntos desde a juventude. Eles estão para receber um neto e Joe irá receber um Prêmio Nobel como escritor. Como poderia tanta honra e prazer ser maculado? O que há de inconveniente num contexto tão sublime? Essas perguntas são provocadas imediatamente pelo olhar de Joan perdido enquanto recebe a notícia pela linha de espera do telefone.

Há toda uma vida, carreiras, status e família em jogo que, após tantos anos, só se deseja preservar a despeito de quaisquer frustrações pessoais. O patamar do sacrifício que Joan administrou para elevar o marido ao sucesso, abdicando de seus próprios sonhos enquanto escritora, é tamanho, que ela inclusive luta ferramente para manter sua condição, resguardada na sombra de um homem construído por suas mãos e exercendo apenas o papel matriarcal resignado de uma cuidadora do lar.

Foto: Pandora Filmes

O diretor sueco Björn Runge (Happy End) explora a pulverização vagarosa dessa instituição familiar na medida gradual em que Joan é ignorada pela mídia e outras figuras intelectuais, e Joe é idolatrado por suas obras, mesmo ao aparentar sequer se lembrar de seus personagens por vezes. O filho de ambos, David (Max Irons), se angustia com a busca pela aprovação do pai e um invasivo jornalista, Nathaniel (Christian Slater) caça os furos na história impecável desse relacionamento.

Ainda contando com a condução de Glenn Close, o filme prossegue interrompendo o desenvolvimento de seus personagens em um palco ilustre de atuações e segredos, introduzindo péssimos flashbacks, redundantes, fora do tom, não acrescentando nada e enfraquecendo as descobertas que vão sendo feitas pelo espectador sobre a natureza da relação amorosa e profissional entre os dois.

Também todas as revelações que se sucedem vêm sem serem sugeridas, às vezes com pistas falsas, para ao final se concretizarem as suposições mais óbvias das maneiras mais tolas. É de se esperar que um casal que protegeu com tanto cuidado segredos de décadas soubesse esconder melhor isso do próprio filho, por exemplo. Algumas pistas que vão sendo jogadas são tão suspeitas que retiram a suspensão de lógica do espectador quando ele se vê indagando: "como só agora essas pessoas acharam esse comportamento estranho?".

É realmente uma lástima as fraquezas evidentes do roteiro tirarem a credibilidade da discussão, pois nenhum dos atores está mal, tampouco mal dirigidos.

Foto: Pandora Filmes

A forma como discussões viscerais se misturam com o peso da condição familiar e saltam da fúria e do rancor para a cumplicidade ilustram com vivacidade a dinâmica alquebrada de um casal prestes a ruir, de uma forma de vida limitante para as mulheres que são condenadas a desistir de suas ambições e projetos para colaborar com o arregimento de uma sociedade patriarcal, de homens medianos coroados.

O terceiro ato do filme conclama seu veredicto sobre o prognóstico reservado para esta elaboração masculina da civilização, da arte, das relações humanas. Diz que, por mais temerários e impositivos que sejam estes imperadores, seus templos estão desabando, permitindo que um novo pilar de criatividade se erga, por novas artesãs do mundo.

Bom

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