CRÍTICA | Guerra Fria


Direção: Pawel Pawlikowski
Roteiro: Pawel Pawlikowski e Janusz Glowacki
Elenco: Joanna Kulig, Tomasz Kot, Borys Szyc, Agata Kulesza, entre outros
Origem: Polônia / Reino Unido / França
Ano: 2018


Trazer um belo conto romântico em meio a conflitos sangrentos e perseguições políticas no velho continente entre os anos 40 e 60 é, sem dúvida, um grande atrativo para o espectador, ainda mais quando não se trata de um filme ideológico, e sim de uma narrativa entre duas pessoas com personalidades e pensamentos tão diferentes. Baseado nessa premissa, o cineasta polonês Pawel Pawlikowski (Estranha Obsessão), vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro por Ida (2013), traz ao público Guerra Fria (Cold War), uma obra que insere o espectador em um período turbulento e marcante da história, mas que se preocupa em mostrar que o amor sincero supera tudo, até mesmo a distância.

Wiktor (Tomasz Kot) é um compositor responsável por um grupo musical de Folk, formado pela Escola de Música polonesa, e que irá se apresentar por todo o país. Durante o processo de seleção de talentos, ele conhece e se apaixona por Zula (Joanna Kulig), uma jovem cujo passado é bastante obscuro, com rumores de que teria matado o pai. A trajetória do casal é acompanhada por quinze anos e passa por cidades como Varsóvia, Berlim, Zagreb e Paris, entre várias idas e vindas. Mesmo que já tenham novos parceiros, em meio à repressão política e ao regime comunista polonês, o forte sentimento entre eles persiste.

Foto: Califórnia Filmes

O roteiro, assinado pelo próprio Pawlikowski, traz um forte apelo social, focando no drama do casal e no grupo de artistas. Suas apresentações são muito bem retratadas, com rostos e ambientes em planos fechados e médios, combinados com uma trilha sonora de música clássica que torna cada momento inesquecível. A experiência do espectador fica ainda mais rica quando é feito um cruzamento com o conturbado momento de repressão pós Segunda Guerra e o romance improvável entre Wiktor e Zula.

A fotografia em preto e branco parece conversar com quem assiste a obra, valorizando os detalhes e as expressões faciais dos atores, bem como os sentimentos de seus personagens. O tipo de experiência singular que apenas os filmes em cores conseguem entregar.

Ainda que tudo soe muito atrativo, a aceleração no ritmo dos acontecimentos do segundo para o terceiro ato acabam prejudicando a conclusão da história. Além disso, como questões ideológicas não são abordadas, as visões de mundo dos protagonistas não soam claras, o que poderia trazer ainda mais camadas para tais personagens.

A atuação da dupla protagonista é sensível e vibrante. Joanna Kulig (João e Maria: Caçadores de Bruxas) vive uma mulher segura e decidida do que quer da vida, ainda mais quando começa a deslanchar no mundo da música. Tomasz Kot (A Arte de Amar), por sua vez, dá vida a um autêntico boêmio, amante da noite e da liberdade, mas que passa por grandes transformações quando precisa se deslocar de país para não ser preso, bem como quando é confrontado por Zula, no que tange à sinceridade e o amor que os cerca.

Foto: Califórnia Filmes

No fim, Guerra Fria é uma boa variação entre romance e drama, possui uma trilha sonora impecável, dotado de uma bela fotografia e uma história que, querendo ou não, soa como importante registro histórico. Não a toa recebeu algumas justas indicações ao Oscar 2019.

Ótimo

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