Cara Gente Branca | 1ª Temporada


Muito provavelmente em alguma momento da sua vida você já se sentiu isolado, distante, quase um estranho no ninho. Se não, bom pra você, mas saiba que há muitos que se sentem assim, quando se mudam para um bairro novo, uma casa nova, uma nova escola, um local de trabalho, enfim. Essa sensação deve ser apenas uma fração do que as minorias sofrem ao longo da vida. Eu, sob hipótese alguma, posso dizer que entendo o que o que eles passam, já que não pertenço a uma minoria, mas o sentimento de não pertencimento nos ronda a todo momento, mesmo em uma roda de conversa de bar com pessoas que não nos conhecem.

Eis que, em 2014, um filme financiado coletivamente decidiu falar sobre o racismo camuflado em nossa sociedade, jogando na cara de todos o quanto o mesmo ainda está presente, mesmo que de forma velada em muitos casos. O longa-metragem em questão é Cara Gente Branca (Dear White People), que trazia em seu elenco nomes em ascensão como Tessa Thompson (Thor: Ragnarok) e Tyler James Williams (Todo Mundo Odeia o Chris), que interpretavam alunos de uma tradicional universidade em que uma fraternidade de homens brancos resolve fazer uma festa sobre a raça negra, fato que serve de estopim para uma sequência de eventos.

Chegando a 2017, a Netflix resolve apadrinhar o tema e lança a história em formato de série, com 10 episódios de cerca de 30 minutos cada. A premissa é a mesma da obra original. Adolescentes brancos de uma universidade prestigiada decidem fazer uma festa blackface em resposta a um programa de rádio de certa popularidade chamado carinhosamente de Cara Gente Branca, onde a estudante negra, Sam (Logan Browning), faz criticas ácidas ao comportamento dos brancos.

Foto: Adam Rose / Netflix

O roteiro foca em cinco personagens: Sam, que já citamos; Troy (Brandon P Bell), o filho do reitor que tem um futuro promissor; "Coco" (Antoinette Robertson), uma garota muito ambiciosa que quer mudar de vida; Reggie (Marque Richardson), um dos alunos mais inteligentes da universidade e que servirá de epicentro para um dos acontecimentos de maior impacto; e Lionel (DeRon Horton), um garoto gay que trabalha no jornal da universidade e que tem uma queda por Troy, seu colega de quarto.

As atuações são um trunfo da série. Logan Browning (Amor de Irmão) como Sam se mostra uma protagonista inteligente, sagaz e que não aceita levar desaforo pra casa, sempre impondo seus pensamentos, mesmo que isso desagrade algumas pessoas. Já Antoinette Robertson (Atlanta) pode até soar um tanto chata como Coco, especialmente por sua ambição, mas defende aqueles que precisam, e é justamente nesses momentos que seu trabalho aparece, mesmo nas cenas mais sutis, como quando ninguém da festa resolve passar a noite com ela.

Marque Richardson (True Blood) é outro que tem papel de grande destaque, tendo seu principal momento quando Reggie discute com outro aluno durante uma festa e policiais chegam para apaziguar a situação, apontando a arma para ele. Desse momento em diante vemos a série série alcançar o ponto culminante em toda a sua critica: o preconceito é profundo e atinge todos os níveis da sociedade.

A direção de arte é primorosa. Acerta em cheio em todos os momentos, seja nos cartazes feitos por Sam e seus companheiros, seja pela "tentativa" de resposta da Pastiche em relação ao que é veiculado no programa de rádio de Sam, ou mesmo na pseudo série Difamação, onde negros se submetem a lascívia dos personagens brancos.

Foto: Patrick Wymore / Netflix

A trilha sonora instrumental também merece destaque, pontuando com destreza a melancolia de Reggie, chorando em seu quarto, devastado pelo que acabará de acontecer, ou mesmo em partes mais suaves, como Lionel descobrindo ainda mais sua sexualidade. São momentos de primor técnico que engradecem a produção.

Mesmo tendo em seu DNA vários elementos de comédia, advindos do filme original, o humor não é o foco da série. Aqui a seriedade toma conta e traz reflexões necessárias em um mundo onde problemas justificados são renegados a "meras frescuras" por uma parcela de pessoas que não são atingidas pelo preconceito, ou que não possuem o mínimo de empatia para com o próximo.

Cara Gente Branca vem para trazer questionamentos importantes para toda uma geração de pessoas, muitas delas extremamente acomodadas, fazendo-as refletir sobre as atitudes que andam tendo, reforçando a importância da empatia na vida de todo nós.


Ótimo

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