CRÍTICA | Ilha dos Cachorros

Direção: Wes Anderson
Roteiro: Wes Anderson
Elenco: Bryan Cranston, Koyu Rankin, Edward Norton, Bill Murray, Jeff Goldblum, Bob Balaban, Liev Schreiber, entre outros
Origem: Alemanha / EUA
Ano: 2018

Atenção! Essa crítica contém spoilers!

É sempre de chamar atenção o quanto obras animadas - dentre todo o leque de possibilidades técnicas que essa arte contempla - encontram um poder singular para tratar de assuntos de competência da mais crua realidade com uma sinceridade sem indulgências aliciativas. Ainda que Ilha dos Cachorros (Isle of Dogs) se introduza ao espectador como uma narrativa fantasiosa, com a abertura de um mito e suas miniaturas e maquetes extravagantes, nunca permitindo o espectador esquecer o caráter lúdico daquela experiência, todos os tópicos relevantes permanecem ali. Racismo, campos de concentração, políticas imigratórias, relações com o estrangeiro. Claro, são cachorros que estamos vendo em tela, cães em um mundo onde foram domesticados e tornados servis por e para uma sociedade que facilmente os renega diante da sugestão de uma dificuldade no caminho.

O véu deslumbrante da estética que se abre pelo filme não impede de perceber a acidez com que fala sobre as políticas atuais de abertura para refugiados de guerra na Europa e os recentes escândalos imigratórios do governo Trump. 

Voltando um pouco para a trama, uma epidemia viral de febre, cuja matriz são cachorros, tem assolado a cidade de Megasaki, ao ponto que seu prefeito completamente indisposto aos caninos - preferindo, ironicamente, toda espécie de gatos que possa ter ao redor - decretou o ostracismo de todos os cães para uma ilha depósito de lixo. Em poucos meses a situação da ilha já é desesperadora para os animais, lutando por qualquer resto de comida podre que alcancem.

Imagem: Fox Film do Brasil

Apesar da tortura que essa ação configura para os animais domésticos, Chief (Bryan Cranston) não foi domesticado e sempre foi um cão de rua acostumado com essa dinâmica, inclusive sendo avesso às reverências que seus parceiros de matilha prestam aos homens. Essa percepção vai sendo posta à prova quando o sobrinho prodígio do prefeito, Atari Kobayashi (Koyu Rankin), rouba um jato em miniatura para chegar na ilha e reencontrar seu melhor amigo, o cachorro Spots (Liev Schreiber). A matilha que nos é apresentada ao início - nas vozes marcantes de Edward Norton, Bill Murray, Jeff Goldbum e Bob Balaban, compondo um grupo completamente improvável de personificações que sozinhas já valem o tempo de tela - se compadece pela jornada e topa a missão de ajudar, à contragosto de Chief, que está mais interessado na pequena cadela Nutmeg (Scarlett Johansson).

Se torna cada vez mais factual que a técnica do stop motion (aplicada aqui com uma precisão cirúrgica de detalhes frente obstáculos quase absurdos como o pelo dos moldes dos cachorros) é a mais prática para comportar toda a megalomania grandiloquente da proposta visual do diretor Wes Anderson (O Fantástico Sr. Raposo). Ao mesmo tempo é gostoso apreciar como o festival imagético atenua sequências violentas numa estrutura que permite ainda mais deslumbre. Como exemplo, nos momentos de briga generalizada, toma-se forma uma maquete de fumaça de onde despontam partes de punhos socando, rostos virando, pernas saindo, bem ao estilo cartoon. O apuro técnico aqui obtido é merecedor dos mais calorosos aplausos. 

Dito isso, ao mesmo tempo em que o stop-motion se torna o lugar perfeito para Anderson executar o que sabe de melhor, também se torna um perigo ao estabelecer uma zona de conforto em sua linguagem, considerando que Ilha dos Cachorros não trás nada de diferente do que o próprio cineasta já fez antes. A expressão "um filme de Wes Anderson" evoca imediatamente um tipo de imagem ao imaginário popular cinéfilo, o que nos propicia a pensar neste filme mais como uma manutenção do que já foi feito do que uma criação em si. Mas, só dessa vez, darei meu voto de confiança, pois juntar Japão, cachorros e movimentos estudantis em um único filme apelou ao âmago do meu ser.

Imagem: Fox Film do Brasil

Ainda que haja uma lógica de reciclagem estilística, é admirável a potência do senso de aventura na obra. Quando os personagens optam pela jornada de Spots, nem por um momento o espectador questiona a decisão. Ele se torna mais um membro da matilha, percorrendo terras assombrosas, visitando oráculos, se deparando com um despenhadeiro. Criar um ambiente tão convidativo para que possamos investir emoção no que assistimos é uma vitória rara nos longas do gênero na atualidade. Você quer chegar ao final daquela estrada e encontrar o cão de Atari, só para descobrir que Spots, com o maior senso de dever e lealdade, tem de abdicar de seu posto, pois se tornou líder de um outro grupo, o de sua família, e agora muitos outros precisam dele.

Paralelamente a tudo isso somos apresentados a Tracy Walker (Greta Gerwig), uma estudante inter cambista que participa com entusiasmo e aflição de movimentos escolares, vendo tramas políticas de uma nação a qual não pertence, mas movida pelo ímpeto do que acredita, apaixonada pelo que vive naquela terra. Tal postura nos dá mais nuances sobre como as pessoas podem participar do mundo ao redor delas, promovendo melhoras, independentemente de onde tenham vindo.

Em um de seus momentos derradeiros, a ameça se trata de os cachorros da ilha serem deslocados para um campo de concentração onde serão exterminados, isso, claro, se a história não for mudada no próprio cenário político onde tudo se originou. Ilha dos Cachorros conclama seu amor pelos melhores amigos do homem, pela pluralidade cultural e pela aventura com um senso de humor desconcertante. Tudo isso através de uma animação hipnotizante.

Imagem: Fox Film do Brasil


Ótimo

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