CRÍTICA | Acrimônia


Direção: Tyler Perry
Roteiro: Tyler Perry
Elenco: Taraji P. Henson, Lyriq Bent, Ajiona Alexus, Antonio Madison, Danielle Nicolet, entre outros
Origem: EUA
Ano: 2018


Logo que a sessão começa você se depara com uma palavra pouco conhecida, um substantivo feminino, que significa alguém que tem raiva, mal-humorado, áspero e tem sentimento de raiva. Sim, Acrimônia (Acrimony), expressão que dá título ao filme de Tyler Perry (Diário de uma Mulher Negra), uma obra que, pode-se dizer, é uma mistura de melodrama com humor, que aproveita a oportunidade para fazer importantes críticas morais e sociais. De quebra ainda temos Taraji P. Henson (Estrelas Além do Tempo) como protagonista.

Na trama, Melinda (Taraji P. Henson) é uma mulher que faz de tudo pelo marido. Desde comprar um carro para o comodismo do mesmo, até trabalhar em dois empregos enquanto ele se empenha em um projeto paralelo, uma bateria revolucionária com poder de recarregamento em casas e carros. Mas, após sérias escorregadas de Robert (Lyriq Bent), que afetam não apenas a protagonista, mas toda a sua família, a mulher entra em colapso, enlouquece e nascendo uma enorme sede de vingança. Não há nada que segure Melinda em seu propósito, nem mesmo suas irmãs, que desde o início a alertaram sobre as atitudes e o caráter do marido. A protagonista então parte para um caminho sem volta e que irá trazer sérias consequências para todos.

O roteiro, também de Tyler Perry, se utiliza de flashbacks e de narração em voz over da personagem central, afim de explicar alguns fatos de seu passado, como a maneira que Melinda e Robert se conheceram e o que desencadeou o sentimento de raiva e descontrole na protagonista. O longa sugere ao espectador que cada personagem tem a sua própria visão dos fatos, causando enorme ambiguidade e deixando muitas dúvidas em quem assiste. Será que Melinda está exagerando? Ou Robert realmente é culpado de seus atos?

Foto: Paris Filmes

Devoção à família, amizade, relacionamento e traição são outros dos temas abordados pela narrativa, que o faz de maneira incisiva, soando exagerado muitas vezes, com excesso de dramaticidade, sem muito desenvolvimento. Há ainda certa reviravolta na trajetória dos personagens, especialmente na forma como eles lidam com as mudanças de vida, mas tudo beira o absurdo.

Há espaço para uma discussão sobre o sistema capitalista, suas formas de ganhar dinheiro e os dilemas enfrentados para se alcançar sonhos traçados. Nem sempre é possível se dedicar exclusivamente ao que se gosta, e desempenhar funções que não têm a ver com a nossa real vocação podem se fazer necessárias. Ter "jogo de cintura" em um mundo marcado por crises oscilantes e de tamanhas desigualdades é um reflexo do que vemos no frustrado Robert, um retrato desse capitalismo selvagem.

Se por um lado o texto decepciona, as atuações compensam. Percebe-se que houve grande preparação de Taraji P. Henson para viver a protagonista, com seu ar inicialmente blasé e que depois se revela uma mulher amargurada e insana. Seu arco dramático é complexo e demora a se desenvolver, mas corresponde às expectativas e certamente dividirá a opinião dos espectadores. Há momentos em que abraçamos a causa da personagem, em outros nem tanto. Um misto de comoção e decepção apresentados principalmente no ato final da trama, quando tenta concretizar sua vingança.

Foto: Paris Filmes

Já Lyriq Bent (Regresso do Mal) vai pelo caminho contrário, inicialmente se mostrando canastrão e sem caráter, mas que depois arranha certa redenção, tentando se reerguer. Completam o elenco Ajiona Alexus (13 Reasons Why) e Antonio Madison (The Tailor's Apprentice), que interpretam o casal Melinda e Robert jovens, além de Danielle Nicolet (Um Espião e Meio), a melhor amiga de da protagonista na segunda fase da história. Todos cumprem seus papéis dentro do proposto, não são atuações rasas, mas fica evidente a falta de tratamento no roteiro.

Apresentando ainda alguns problemas de narrativa, com ritmo lento ao longo dos dois primeiros atos e demasiadamente acelerado no desfecho, Acrimônia consegue chocar e divertir, uma mistura improvável, mas coerente com as situações bizarras e as atitudes controversas apresentadas pelos personagens. Uma proposta interessante, mas que se transforma em comédia involuntária.

Bom

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