CRÍTICA | Bleach

Direção: Shinsuke Sato
Roteiro: Daisuke Habara
Elenco: Miyavi, Hana Sugisaki, Sôta Fukushi, entre outros
Origem: Japão
Ano: 2018


Se produções live action de animes estão fadadas a conflitos inerentes a sua proposta (como traduzir o movimento, compactar uma história extensa, e a divisão entre angariar um público novo ou satisfazer os fãs da obra original), a adaptação da vez, Bleach, dirigida por Shinsuke Sato (Death Note: Iluminando um Novo Mundo), ocupa um lugar curioso dentre as obras do gênero nos últimos anos. Vale citar que o filme é distribuído mundialmente pela Netflix, que aos poucos parece se voltar para o nicho do público otaku, grupo em si que também vem se avolumando paulatinamente, circunstância notória pelas mudanças recentes ocorridas no mercado editoral, em canais de YouTube e plataformas de streaming

Os riscos iminentes de uma produção desse tipo envolvem a fidelidade que um público já garantido - no qual a projeção econômica especulada do produto se ampara inicialmente - possui com o material original, efetivando um boca-a-boca desastroso, caso fiquem descontentes aqueles que, antes de tudo, são termômetro para um crivo geral aproximado das plateias. Apesar de uma arrecadação tímida em seu primeiro fim de semana em cartaz (1,5 milhões no Japão), a boa comunicação entre espectadores efervescidos tem alimentado um burburinho satisfatório, ainda mais depois de uma aplaudida sessão no Festival of New Japanese Film em Nova York.

Bleach foi por anos um dos carros chefes da mais poderosa revista de mangás no Japão, a Weekly Shonen Jump, casa de obras como Dragon Ball, Naruto e One Piece. Desde 2011, com a finalização grosseira do arco mais relevante da obra, o autor Tite Kubo encontrava dificuldades em compactar as estruturas de seu enredo, muito em função dos desconcertos frutos do lançamento semanal, passível de todas as críticas, encontrando um fim abrupto e sem resoluções em meados de 2016. As conclusões irrisórias drenaram a afetividade de grande parte dos fãs, renegando a obra há um sumário esquecimento. Como poderia essa empreitada dar certo? Como pôde dar tão certo?

Foto: Warner Bros Pictures

Em resumo, a premissa de Bleach é simples e até conveniente. Ichigo Kurosaki (Sôta Fukushi) é um garoto com sensibilidade espiritual, que sempre foi capaz de ver fantasmas, até que um dia entra em contato com uma Shinigami (ou Ceifador, como ficou na dublagem do filme pela Netflix) responsável pela transição desses espíritos ao céu (ou Soul Society, na obra) tanto quanto por enfrentar Hollows, espíritos que viraram monstros por não terem sido salvos em tempo. A Shinigami Rukia é ferida em combate e, para ambos sobreviverem, ela transfere seus poderes para o humano, assumindo assim o papel de Shinigami Substituto. A partir dessa origem o filme diverge do mangá em aspectos inteligentes na sua maneira de traduzir a linguagem e arredondar o arco dramático da adaptação.

Entre as diferenças está o fato de que logo de início Rukia (Hana Sugisaki) tenta adquirir seus poderes de volta, inclusive porque tal câmbio configura crime capital no regime da Soul Society, enquanto no mangá, ela prontamente coloca Ichigo para entender seu papel como Shinigami Substituto, enquanto não consegue tomar seus poderes de volta.

O ritmo da obra torna as quase duas horas de projeção bem coesas, explorando características fortes da série original, inclusive entendendo que onde ela é mais forte é justamente onde seu tempo é mais limitado. A ausência de previsões sobre a durabilidade dos eventos dispersava a condução narrativa no mangá e se tornou fatal em sua reta final, ainda que em muitos momentos, quando o autor se desafia a um plot curto, consegue preenchê-lo com exatidão.

O filme tem início meio e fim armados com algum esmero, sabendo explorar a construção da grande problemática do protagonista, seu trauma com a incapacidade de proteger sua mãe, de maneira tão orgânica quanto o material que adapta, apresentando efeitos visuais para os monstros dignos de elogios, tendo em vista o baixo orçamento.

Foto: Warner Bros Pictures

É inegável, no entanto, que o destaque é a dinâmica entre Ichigo e Rukia. Declaradamente um dos charmes da série, aqui é transfigurada em pessoas reais que carregam uma atuação envolvente e divertida, dando inúmeras expressões a personagens já consagrados por papel e tinta, especialmente Hana Sugisaki (As Memórias de Marnie). Todas as trocas entre os atores trazem a natureza obstinada e empolgante de seus protagonistas, oferecendo um novo senso de humor para seu vínculo.

A edição, recheada de cortes dinâmicos, letreiros que invadem as cenas e uma trilha sonora baseada em rock são profundamente satisfatórios, pois aqui cabem perfeitamente na estética do mangá, também muito urbano. Trata-se de uma montagem que me lembrou muito os trabalhos de Edgar Wright (Em Ritmo de Fuga), mas nunca de maneira gratuita e sempre emoldurando um ritmo que talvez caiba melhor nessa linguagem do que jamais coube na adaptação animada. Fora uma coreografia minimamente pensada que embebe de vigor inédito as lutas de Bleach, que no mangá sempre foram muito mais focadas em choques de espadas repetitivos do que uma mistura com trocas corpo-a-corpo.

Claro que alguns problemas permanecem, como a intenção de ser fidedigno com a necessidade de aglutinar eventos que conduzam à mesma direção, porém, quando reorganizados, nos levam até uma cena final estranhamente extensa, onde muitos personagens são mero apelo estético. Mas esses desafios são facilmente contornáveis diante da ousadia em explorar outras facetas de direção e montagem, que os demais live actions mal consideram como uma possibilidade, sempre limitados apenas à tornar física uma história em quadrinhos, desconsiderando como a linguagem cinematográfica em si pode enriquecer o conteúdo e propor novas leituras do mesmo.

Bom

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