O Mundo Sombrio de Sabrina | 1ª Temporada


Trilhando caminhos bem diferentes da obra original, O Mundo Sombrio de Sabrina (Chilling Adventures of Sabrina) estreou na Netflix atraindo muitos olhares. Foi inclusive um dos assuntos mais comentados no Twitter, com as hashtags #Sabrina e #Caos, e uma das produções mais assistidas da gigante do streaming neste ano. O novo remake, apesar de ser baseado em Sabrina, Aprendiz de Feiticeira (Sabrina, the Teenage Witch, 1996), mostra que é possível fugir da comédia e buscar ares mais sombrios, sem perder a essência da história e de seus personagens. 

Nessa produção, Sabrina Spellman (Kiernan Shipka) é uma adolescente. Metade bruxa, metade humana, ela enfrenta os dilemas entre escolher uma de suas duas vidas. Seu pai era um grande bruxo, sumo sacerdote da Igreja da Noite e diretor da Academia de Artes Ocultas, enquanto sua mãe era uma simples mortal. Quebrando inúmeras regras bruxas, o casal consegue o direito de permanecer juntos, porém, acabam sofrendo um acidente misterioso logo após o nascimento da filha. Sabrina é criada então pelas duas tias, Zelda (Miranda Otto) e Hilda (Lucy Davis), em companhia do primo bruxo Ambrose (Chance Perdomo). Porém, em paralelo a tudo isso, a protagonista convive entre os humanos, estudando na escola de Greendale e criando amizades e relacionamentos.

A trama começa alguns dias antes de Sabrina completar 16 anos, momento único na vida dos bruxos, já que é quando eles assinam o Livro da Besta, jurando obediência e fidelidade exclusiva ao Demônio. A partir daí, eles se convertem a Igreja da Noite, ganhando poder e juventude eterna, tendo, contudo, que obedecer totalmente às ordens do Senhor das Trevas. Spellman não tem certeza quanto a essa escolha, pois sabe que terá que abandonar seus amigos e namorado, mas aos poucos vai percebendo que talvez seja obrigada a seguir tal caminho. Não fica claro o porquê da insistência do Demônio em ter Sabrina ao seu lado, mas tudo indica que a poderosa descendência paterna faz da garota uma aliada imprescindível, ou talvez uma inimiga a ser evitada.

Foto: Netflix

Roberto Aguirre-Sacasa (Riverdale), o criador da série, já havia dito em entrevistas que muitas referências aos clássicos do cinema de terror estavam sendo usadas para compor a narrativa. Isso é facilmente comprovado e desponta como um dos principais pontos positivos da produção. Só para citar alguns exemplos, cenas de A Morte do Demônio (1981) e O Exorcista (1973) são recriadas, o cenário de O Cemitério Maldito (1989) é praticamente transferido para a série e similaridades com A Hora do Pesadelo (1984) e O Bebê de Rosemary (1968) também podem ser percebidas. Para os fãs do gênero, é um deleite ficar caçando esses pequenos (ou não) detalhes ao longo dos episódios.

Outro ponto ao seu favor é o desenvolvimento de um universo e mitologia própria. Mesmo tendo bebido da fonte das HQs intituladas "The Chilling Adventure os Sabrina", lançadas em 2014, a série é bem sucedida ao adaptar todas essas ideias para a televisão. É possível notar que houve um trabalho de pesquisa para encaixar elementos como a fictícia Igreja da Noite (que, alias, é inspirada na real Igreja Satânica), somados a mitologia das bruxas e outros seres sobrenaturais. 

Falando um pouco sobre os personagens, a protagonista é interpretada por Kiernan Shipka (Mad Men). A atriz está bem no papel e parece se encaixar como uma Sabrina perfeita, porém, fica óbvio que ela, assim como Ross Lynch (Meu Amigo Dahmer), que interpreta seu namorado, não se destacam nos momentos dramáticos, perdendo espaço para a ótima Michelle Gomez (Doctor Who) e o carismático Chance Perdomo (Longfield Drive). Gomez vive Mary Wardell, professora de Spellman que, na verdade, cumpre ordens do Senhor das Trevas. Ela é como um poder oculto que influencia todas as atitudes da garota. Já Perdomo interpreta Ambrose, primo de Sabrina, que foi condenado à prisão domiciliar, após tentar explodir o Vaticano. Além disso, a química da inseparável dupla Miranda Otto (O Senhor dos Anéis: As Duas Torres) e Lucy Davis (Mulher-Maravilha) como Zelda e Hilda, a tia boa e a tia má, também chama a atenção e garante algumas gargalhadas do público.

Foto: Netflix

O Mundo Sombrio de Sabrina aborda questões importantes, passando na frente de outras produções quando o quesito é representatividade. A ocorrência de transfobia no ambiente escolar é retratada através da personagem Susie Putman (Lachlan Watson), uma trans não-binária. Uma das melhores amigas de Sabrina, Fulana, sofre na mão de alguns garotos do colégio e sente na pele o que o preconceito já causou em sua família. É pensando na situação vivida por ela, que Sabrina e Susie criam um grupo de estudos e acolhimento para mulheres, o MAGIA. Ali seria o ambiente ideal para que todas as garotas de Greendale se sentissem abraçadas, mas infelizmente o coletivo não tem grande destaque em tela,

Ao mesmo tempo em que discussões sobre machismo também são levantadas, a rivalidade feminina ainda está presente na trama. A personagem Prudence (Tati Gabrielle) odeia Sabrina sem nenhum motivo aparente, talvez, apenas por inveja. Mesmo a relação entre as duas sendo mais desenvolvida ao longo dos episódios, a impressão é de que a personagem ocupa apenas o lugar de antagonista, sem qualquer motivação. 

Puxando a sardinha para a parte técnica da série, o roteiro se mostra preguiçoso ao se ancorar na narração. Cenas que deveriam ser autoexplicativas usam o recurso como ferramenta para mostrar algo que, na verdade, já estava claro ao público. Além disso, o texto do episódio final se pendura na narração da professora Fulana para amarrar todas as pontas soltas e finalizar o arco. Isso sem contar alguns elementos da trama que são inseridos nos primeiros episódios e esquecidos adiante.


Vale citar também a fotografia da série, preza pelos tons escuros, sempre com detalhes na cor vermelha se sobressaindo em cena. O filtro blur, que deixa o fundo e os cantos da imagem borrados, é usado de forma recorrente, o que chega a incomodar um pouco quando assistimos vários episódios em sequência.

Enfim, O Mundo Sombrio de Sabrina, como toda obra audiovisual, possui seus defeitos, contudo, eles não apagam a experiência positiva de assistir a série. Aproveite que a segunda temporada já está está confirmada e confira essa novidade da Netflix, caso ainda não o tenha feito. É terror, drama adolescente e mistério com pitadas de sarcasmo em um só pacote.

Ótimo

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