CRÍTICA | Roma


Direção: Alfonso Cuarón
Roteiro: Alfonso Cuarón
Elenco: Yalitza Aparicio, Marina de Tavira, Diego Cortina Autrey, entre outros
Origem: México / EUA
Ano: 2018


Produzido pela Netflix e escrito e dirigido pelo vencedor do Oscar Alfonso Cuarón (Gravidade), Roma reacende a velha discussão sobre as formas de distribuição de filmes de menor orçamento e como os grandes festivais e premiações devem receber as produções exibidas nos serviços de streaming. E, nesse ponto, o debate é mais do que pertinente, já que o longa-metragem venceu o Leão de Ouro no Festival de Veneza e tem  boas chances de uma indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2019. Ainda mais se tratando de uma obra que remete aos clássicos de Federico Fellini (8½) e Vittorio De Sica (Adeus às Armas), e que carrega toda a maturidade cinematográfica de Cuarón.

A obra acompanha Cleo (Yalitza Aparicio), uma jovem empregada doméstica indígena que trabalha para uma família de classe média, composta por Sofia (Marina de Tavira) e Antonio (Fernando Grediaga), além de quatro filhos pequenos. Sempre muito zelosa, mas de comportamento retraído, Cleo testemunha o fim do casamento de seus patrões, com o pai de família saindo de casa para viver com alguém mais jovem. A empregada se envolve com um rapaz, mas é rejeitada após uma gravidez indesejada. 

O roteiro prima por uma narrativa diferenciada, com um ritmo mais lento e sem tantas reviravoltas. A trama ambienta-se no início dos anos 70, no México, período marcado por uma enorme comoção política no país, com destaque para o massacre de Corpus Christi, que resultou na morte de 120 pessoas. O espectador então é brindado com cenas do cotidiano e o drama das pessoas que vivenciaram um período tão difícil da nação, além da luta de duas mulheres de comportamentos e classes sociais tão diferentes, mas que acabam evoluindo e se afeiçoando uma pela outra.

Foto: Carlos Somonte

Apesar de ter uma premissa simples e do retrato de um período sangrento, Roma é de uma beleza estética estonteante. Cuarón aqui também assume a direção de fotografia, optando por filmar sua obra em 70mm e em preto e branco, valorizando a narrativa com longos e belíssimos planos, algo comum em sua filmografia. O velho clichê de dizer que alguns frames poderiam ser enquadrados e expostos em uma galeria de arte é pertinente aqui, tamanha a beleza dos enquadramentos do cineasta.

O grande trunfo do roteiro é que ele não traz moral ou lições a serem aprendidas. O espectador se sensibiliza com tudo que vê em tela, muito em função da identificação com tamanhas desigualdades sociais e a maneira como elas impactam os personagens da história. E não é exagero dizer que a obra é facilmente identificável a nós brasileiros, ainda que seja uma história universal, sem a necessidade para grandes reflexões ou questionamentos.

Cuarón procurou com olhar clínico duas protagonistas femininas que contrastam diferentes realidades, não só no que tange à desigualdade econômica, mas nas formas como cada uma enxerga a vida e o que fazem para superar as adversidades. Yalitza Aparicio, apesar de não ter experiência como atriz, desempenha seu papel com naturalidade e desenvoltura, fazendo o público perceber que existe muitas "Cleos" espalhadas por aí, que enfrentam preconceitos, dificuldades, mas que desempenham suas funções com muito amor e um sorriso no rosto. Já Marina de Tavira (Zona do Crime) inicia a obra com um comportamento questionável, mas acaba crescendo com as adversidades e nos vemos afeiçoados a ela.

Foto: Alfonso Cuarón

Roma é uma produção de grande impacto, universal, sensível e humana. Não seria exagero dizer que é um dos favoritos ao Oscar de melhor filme estrangeiro, mas, acima de qualquer premiação, é um filme que certamente deixará alguma marca naquele que o assistir.

Ótimo

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