CRÍTICA | Loja de Unicórnios

Direção: Brie Larson
Roteiro: Samantha McIntyre
Elenco: Brie Larson, Samuel L. Jackson, Joan Cusack, Bradley Whitford, Mamoudou Athie, Hamish Linklater, entre outros
Origem: EUA
Ano: 2017

“A coisa mais adulta que você pode fazer é falhar no que gosta.”

Um dos maiores medos do ser humano é fracassar e ser uma decepção para as pessoas em sua vida. Esse assunto, atual e muito identificável aos jovens millennials, é foco da proposta de Loja de Unicórnios (Unicorn Store), que mostra uma jovem artista em crise de identidade após ser rejeitada pelo meio artístico, se vendo obrigada a tomar decisões difíceis, na ânsia de não ser um fardo para seus pais.

O filme inicia com uma montagem de vídeos caseiros mostrando a protagonista crescendo, fazendo uma ligação direta com ela, já adulta, fazendo sua arte, bastante satisfeita e feliz. A câmera, fechada nela em seu momento de criatividade e satisfação, subitamente corta para um plano aberto surpreendente, que mostra que a garota está em uma aula, sendo a única que utilizou cores variadas e pintou dora da moldura. Uma simples e eficiente metáfora visual que dá o tom da obra dali em diante.

Após ser expulsa da faculdade, Kit (Brie Larson) volta a morar com os pais e se vê no limiar de desistir de seus sonhos e vocações para assumir uma vida que muitos chamariam de “normal”, trabalhando como temporária em um escritório.

Foto: Netflix

Neste ponto a personagem recebe um convite misterioso, uma carta de um desconhecido chamado apenas de "Vendedor" (Samuel L. Jackson), chamando-a para conhecer sua loja, especializada em vender aquilo que mais precisamos. Kit então vê a chance de realizar uma fantasia que nutre desde a infância: ter um unicórnio. O único requisito é cumprir algumas tarefas relacionadas, como construir um estábulo para o animal e confirmar ter condições de cuidar dele de forma adequada. Sonhos e vocações coloridas entram em conflito com um mundo corporativo cinza e marrom, enquanto a protagonista tenta seguir adiante entre ambos.

A estreia de Brie Larson (Capitã Marvel) na direção, em um longa-metragem que ela também co-produz, é ao mesmo tempo crítica e lúdica. A fábula do unicórnio segue sem muitos questionamentos durante o primeiro ato, pois trata-se de muito mais do que apenas um animal. Para Kit, é um indício de que as coisas ainda podem ser como deveriam, um sinal de esperança. O problema é que o mundo de sonhos, fantasia e tinta borrada acaba soando tolo, até mesmo para a própria protagonista. Mesmo quando tenta trazer um pouco mais de vida e colorido ao universo corporativo, fazendo uma crítica social à padronização presente nessa cultura, ela acaba sendo esmagada mais do que antes. É uma oportunidade de discorrer sobre como a sociedade massacra seus indivíduos, que tentam pensar ou agir fora da caixa. Uma temática que poderia ter sido melhor explorada.

O resultado desse embate é uma obra visualmente interessante, principalmente do ponto de vista técnico, como os cenários e a fotografia. Kit parece confortável e adequada somente quando está na loja de unicórnios, enquanto, no restante do longa, soa deslocada. Mesmo ao tentar se vestir de maneira sóbria, tentando gostar de coisas nojentas - em suas próprias palavras - como café, ela não parece pertencer a tudo aquilo. Ela se sente feliz e à vontade quando cercada de cores diferentes, algo que pode ser percebido em seus figurinos. Com sua queda no início, a personagem passa a usar cinza e mergulha em tons frios, mas a loja funciona como uma faísca colorida, e conforme ela avança em sua jornada, as cores voltam a fazer parte de sua vestimenta.

Foto: Netflix

Apesar de todo o contexto visual, o roteiro parece não encontrar um rumo, se perdendo nos detalhes. Há momentos exagerados e infantis da personagem, que não dá o braço a torcer mesmo quando está errada e, muitas vezes, acaba quebrando as próprias regras em uma tentativa de se firmar, algo que sabemos que vai dar errado. Tal comportamento é compreensível em partes, pois essa aura infantil faz parte de Kit e a personagem está em uma jornada de descobrimento, mas, ainda assim, algumas de suas atitudes soam como as de uma criança birrenta ou uma adolescente problemática, o que acaba comprometendo um pouco da mensagem que está sendo passada.

Desde O Quarto de Jack (2015), obra que lhe rendeu o Oscar de melhor atriz, percebe-se uma predisposição de Larson em trabalhar com projetos que exaltem o emocional, da maneira que for. E é sempre encorajador produzir histórias que visem alcançar o espectador de tal maneira. Pena que esta produção da Netflix encontra dificuldade em manifestar os tons pretendidos.

Os destaques positivos ficam por conta das atuações. Samuel L. Jackson (Vidro), com sua competência habitual, mas em um personagem caricato; Mamoudou Athie (O Favorito), pela legitimidade de seu trabalho; Joan Cusack (De Repente uma Família), vivendo uma mãe carismática, com uma mistura de carinho e energia; Bradley Whitford (Corra!), um pai calmo, ingênuo e, à sua maneira, sonhador. Vale citar ainda Hamish Linklater (A Grande Aposta), que entrega uma mistura de asco com blasé. 

Brie Larson estreia na direção com um filme leve e doce, mas ao mesmo tempo, raso e ingênuo. É simples, sem grandes pretensões, e sabe disso. Durante os 92 minutos de Loja de Unicórnios, temos graça, cor e movimento, além da já citada luta interna e externa de Kit. Ao mesmo tempo, nada se sobressai o suficiente para se tornar memorável. No entanto, com apenas 29 anos de idade, a cineasta tem tempo de sobra para buscar refinamento na profissão, talvez aplicando aspectos de seu próprio talento como atriz.

Bom

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