CRÍTICA | Rocketman

Direção: Dexter Fletcher
Roteiro: Lee Hall
Elenco: Taron Egerton, Jamie Bell, Richard Madden, Bryce Dallas Howard, entre outros
Origem: Reino Unido / EUA
Ano: 2019

“Oi, meu nome é Elton Hercules John. Eu sou viciado em álcool, drogas em geral, cocaína, maconha, sou bulímico, tenho acessos de raiva e tenho vício em sexo.”

É dessa forma, sem cerimônias, que Rocketman apresenta seu protagonista em sua cena de abertura, trazendo um Elton John espalhafatoso, entrando como uma diva em um grupo de assistência para adictos. O momento, por si só, é um resumo perfeito do que a obra propõe: contar a história da personalidade através de seus infernos pessoais, os fracassos, vícios e traumas que não o impediram de se tornar um dos maiores cantores de todos os tempos. Representar apenas as suas glórias seria tarefa fácil e comum a todos.

A narrativa é contada em primeira pessoa, através de flashbacks narrados pelo próprio Elton, que descreve sua trajetória desde a infância usando e abusando da fantasia. O filme, aliás, é recheado de momentos simbólicos destacados por sua competente fotografia. Quando vemos a infância pobre do garoto, cheio de conflitos com os pais, a paleta de cores mostra-se desbotada, desinteressante. Então, quando a criatividade e fantasia surgem em tela, geralmente são aliadas às canções, uma fuga do pequeno inferno em que o protagonista vivia. É sempre diante do piano que ele se permite extravasar.

Foto: Paramount Pictures

Vale ressaltar, contudo, que o foco aqui não é a música de Elton, mas sua persona, como ser humano. As cores chamativas e os momentos extravagantes não tiram o peso de sua jornada. E dentro desse contexto, Rocketman acerta ao renegar suas principais canções ao papel de trilha sonora de luxo. Por mais fácil que fosse transformar tudo em uma grande sequência musical, o longa faz das músicas ferramentas orgânicas de roteiro. Todos os seus sucessos estão presentes, com destaque para os momentos em que escutamos “Saturday’s Night Alright” e “Your Song”.

Roteiro esse que não se priva de mostrar os traços mais duros da personalidade do cantor, admitindo sua desonestidade em diversos pontos, a falta de proximidade com o pai, a convivência com uma mãe que pouco se importa com os sentimentos do filho e, claro, a sua sexualidade. Se hoje a carreira e jornada de Elton John soam impecáveis, talvez seja pela falta de medo de arriscar, apresentando seu lado mais sombrio ao público. Não há a intenção de transforma-lo em um mito ou ídolo perfeito, muito pelo contrário. Trata-se da história de um homem "comum", que sofre, tem carências e deseja ser amado como qualquer outro.

Taron Egerton (Kingsman: O Círculo Dourado) - além de ser semelhante fisicamente ao cantor na juventude - absorveu os traços, trejeitos e visuais de Elton de forma sensível, o representando de maneira natural, tomando para si sua persona extravagante nos palcos, ao mesmo tempo em que não deixa de lado o jovem tímido que já fora Reginald Dwight (nome de batismo do cantor).  O ator é dono de todas as cenas em que está presente e merece reconhecimento pelo fato de não ter dublado nenhuma canção. Egerton cantou todas elas ao público, da sua forma, no limite de sua voz., e o resultado é bastante positivo. Possivelmente o melhor trabalho de sua carreira até aqui.

Completam o elenco Bryce Dallas Howard (Jurassic World: Reino Ameaçado) e Steven Mackintosh (Luther) como os pais de Elton, Richard Madden (Segurança em Jogo) como o empresário inescrupuloso e Jamie Bell (Estrelas de Cinema Nunca Morrem) como Bernie Taupin, principal letrista e amigo do cantor. Esse último, aliás, é o que mais ganha desenvolvimento em tela, já que a amizade e a confidencialidade de ambos é descrita de forma bela, como se partes do longa-metragem fossem uma espécie de agradecimento ao colega por anos de apoio e companheirismo.

Foto: Paramount Pictures

Evidentemente que não poderia deixar de citar os figurinos. Elton John também é conhecido mundialmente por seus trajes espalhafatosos e chamativos, quebrando qualquer regra pré-estabelecida, e o filme consegue recria alguns deles de forma impecável, retratando intervalos de tempo com fidelidade e eficiência.

Seria fácil para Rocketman trilhar o caminho de um protagonista que coloca a culpa de todos os seus percalços em sua construção familiar e na fama excessiva, contudo, o longa não cai no lugar comum. Quebrando barreiras e sem medo de mostrar quem realmente é, Elton assume a responsabilidade por seus atos menos louváveis como se tivesse perdoando a si mesmo em tela. Nessa mistura de realidade e fantasia, abordadas de forma sincera e corajosa, quem ganha é o público, que é presenteado com uma cinebiografia que homenageia dignamente a carreira de seu biografado.

Excelente

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