CRÍTICA | O Enigma da Rosa


Direção: Josué Ramos
Roteiro: Josué Ramos
Elenco: Ramiro Blas, Pedro Casablanc, Ignacio Fernández, Elisabet Gelabert, Patricia Olmedo, entre outros
Origem: Espanha
Ano: 2017


O cinema espanhol domina muito bem a faceta de criar tramas em que o cotidiano se torna uma catástrofe claustrofóbica, daquelas de fazer perder o ar enquanto a história vai se desenrolando. O Enigma da Rosa (Bajo La Rosa), filme dirigido por Josué Ramos (Involucrado), se encaixa nesses quesitos e consegue levar o espectador ao inesperado com sofisticação e excentricidade.

Uma família rica vê sua vida mudar do dia para a noite com o sumiço de Sara (Patricia Olmedo), filha caçula de Julia (Elisabet Gelabert) e Oliver (Pedro Casablanc). Em meio ao desespero, os dois, juntos do irmão mais velho, Alex (Zack Goméz), recebem por debaixo da porta uma carta do sequestrador (Ramiro Blas). Ele diz que tem a menina, mas que só a devolverá se os três aceitarem uma conversa. Em troca da garota com vida, um deles precisa confessar um ato em que prejudicaram muito a vida de alguém.

O longa adota a estrutura de enredo que é utilizado em obras como Coerência (2013) e os igualmente espanhóis Perfeitos Desconhecidos (2016) e O Bar (2017). Neles, a trama insere um grupo de pessoas em uma situação aparentemente normal, mas que começa a tomar proporções inesperadas, em que precisam se unir para permanecerem vivos, ou conquistarem um objetivo em comum. Esse enredo permite que o espectador também se torne um personagem da narrativa, já que, por saber tão pouco quanto os protagonistas, compartilha de suas estranhezas, dúvidas, questionamentos e medos.

Foto: Elite Filmes

Assim, O Enigma da Rosa não permite que o tédio exista. Os acontecimentos, mesmo nebulosos e confusos, são intrigantes. O roteiro se desenrola de forma que não se arrasta, mas também não sobrecarrega o público de informações. Nas personagens, os sentimentos de culpa e de autopunição se tornam combustível para coordenar ações que as levam ao extremo. 

Desde o princípio, o antagonista faz questão de aparecer sem máscaras, sem armas e sem qualquer aspecto que o torne perturbador. É apresentado de cara limpa, cru; mas com expressões duras e impassíveis. Ramiro Blas (Por um Corredor Escuro) entrega uma performance dissimulada e provocativa, o combustível necessário para acender a inquietação da família. 

Para atrasar o tempo restante de vida da garota, ele faz jogos psicológicos e propõe castigos que condizem com os segredos que são revelados: o pai perde dois dentes, a mãe comete uma traição em frente ao marido e o filho é quase obrigado a se masturbar com uma cenoura. Isso sem contar o esplêndido e chocante ato final, que deve agradar quem é apreciador da agonia de obras como Violência Gratuita (1997), por exemplo.

A medida que o espectador se acostuma a ter o sequestrador diante de seus olhos, o personagem vai se despindo e revelando suas características mais humanas. Exemplo disso é quando, em meio ao frisson, pede para que o filho mais velho o prepare um lanche. Ou quando antes de confessarem seus atos, diz que quer conhecer melhor a família e os pergunta onde nasceram e quais são suas ocupações. Mais tarde, isso se revela como uma tentativa de instigar empatia no público, para que depois seja (ou não) colocada abaixo.

Fotos: Elite Filmes

O roteiro desmascara a imagem de família perfeita criada pelos personagens em boa parte do longa. Ao mesmo tempo, consegue convencer que o antagonista nem sempre é o vilão de uma história. Dependendo de sua motivação, as circunstâncias podem torna-lo um herói. Essa inversão de papéis é um dos pontos que causam surpresa no público ao final da experiência.

Em termos técnicos, a direção de Ramos não consegue esconder falhas de montagem, o que pode incomodar aos olhares mais atentos. No entanto, o filme dispensa o uso de trilha sonora para intensificar os pontos de tensão. Os próprios atores fazem isso por si só, apenas com suas atuações. Mais um diferencial para a conta.

Por fim, após conquistar 30 prêmios mundo à fora, entre eles o de melhor filme no Festival de Cinema de Madri, O Enigma da Rosa já chamou a atenção de Hollywood. Chris Hemsworth (Vingadores: Ultimato), através de sua produtora, comprou os direitos do longa para adaptá-lo para a língua inglesa. Motivo para comemorar ou se preocupar? Ainda é cedo para dizer.

Ótimo

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