CRÍTICA | Graças a Deus

Direção: François Ozon
Roteiro: François Ozon
Elenco: Melvil Poupaud, Denis Ménochet, Swann Arlaud, Éric Caravaca, entre outros
Origem: França / Bélgica
Ano: 2018


Escândalos sexuais parecem cada vez mais recorrentes, sobretudo na Igreja Católica. Centenas de casos já foram conhecidos, tanto no Brasil como no exterior, e em muitos deles houve descaso dos religiosos diante das acusações. Seja em documentários ou longas-metragens dramáticos, a abordagem do tema costuma encontrar um lugar comum, mas o cineasta francês François Ozon (O Amante Duplo) toma um caminho diferente ao lançar Graças a Deus (Grâce à Dieu).

O filme é inspirado na história real de Alexandre Guérin (Melvil Poupaud), François Debord (Denis Ménochet) e Emmanuel Thomassin (Swann Arlaud), vítimas do padre Bernard Preynat (Bernard Verley), da arquidiocese de Lyon, na França. Em 2015 os três denunciaram os abusos sofridos entre 1986 e 1991, quando ainda eram menores de idade. Por meio da criação da associação La Parole Liberée (A Palavra Livre), mais de 70 vítimas denunciaram abusos sofridos. O cardeal francês Phillipe Barbian (François Marthouret), arcebispo de Lyon, não denunciou as agressões sexuais cometidas por Preynat e foi alvo de processo judicial, assim como o acusado.

Ozon, que também assina o roteiro, inicialmente apresenta o caso de Guérin, aos 40 anos, pai de cinco filhos, mas ainda atormentado pelas traumatizantes lembranças dos tempos em que participava de encontros religiosos em acampamentos. Ele é o primeiro a tomar a iniciativa de denunciar o padre que o abusou, mas seu propósito não é o de se vingar, mas sim fazer justiça. Ao longo da produção, os episódios envolvendo Debord e Thomassin também ganham espaço, ainda que demonstrem reações distintas em relação ao acusado. Os três casos se entrelaçam, os motivando a criar a associação.

Foto: California Filmes

A proposta de Ozon é clara: se manter fiel às experiências, testemunhos e consequências sofridas pelas vítimas. Não há preocupação em fazer suspense em torno dos abusos, mas em realizar uma abordagem séria, com contornos de denúncia aos abusos da Igreja, destacando a impunidade que persiste até os dias atuais.

Um dos trunfos de Ozon está em manter a trama dinâmica e longe da estagnação, dividindo a atenção do público com três histórias sob olhares diferentes, além de proporcionar as mais diversas reações, de culpa, mágoa e ódio. Cada protagonista tem bastante a oferecer ao espectador, e o sentimento que cada um possui, de crença ou descrença, movimenta todos a prosseguirem com as denúncias e o desejo de punição ao sacerdote, que até hoje está na Igreja e trabalha junto a crianças.

Outro ponto importante é que a obra não tem intenção de condenar a Igreja Católica e tampouco os padres em geral, mas fazer um sinal de alerta de que a pedofilia ainda se faz presente no meio e uma espécie de cobrança é feita para que o Poder Eclesiástico não feche os olhos e tampouco se cale diante dos escândalos. É preciso solidariedade com as vítimas e providências enérgicas para que casos futuros não aconteçam.

A atuação do trio principal contribui para o resultado positivo do longa, ilustrando personagens que souberam lidar com seus traumas até certo limite, com as consciências reprimidas e chegando ao momento em que se sentiram capazes de juntar forças para lutar por justiça e mudanças. Uma pena que Ozon dê tão pouco espaço aos personagens secundários, composto por esposas e filhos da vítima. A construção envolvendo essas relações certamente traria valia ao filme.

Foto: California Filmes

Com uma abordagem linear e cuidadosa, Ozon mostra novamente o diretor que é, capaz de mobilizar públicos diversos e levar até eles histórias com teor social e político. No caso de Graças a Deus, existe um grande mal que precisa ser extirpado, por isso torcemos para que os responsáveis possam reconhecer os erros que existem no meio, extinguindo essa praga que causa tanta dor em tanta gente.

Ótimo

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