CRÍTICA | O Rei da Comédia

Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Paul D. Zimmerman
Elenco: Robert De Niro, Jerry Lewis, Sandra Bernhard, Diahnne Abbott, entre outros
Origem: EUA
Ano: 1982


É fácil apontar a parceria entre Martin Scorsese (Taxi Driver) e Robert De Niro (Touro Indomável) como uma das mais prolíficas e bem-sucedidas da história do cinema em termos de colaboração entre diretor e ator, respectivamente. Ambos despontaram em suas carreiras no mesmo filme, Caminhos Perigosos (1973), e poucos anos depois decolaram em produções que se tornaram clássicos atemporais em temáticas bastante diferentes. Porém, houve também momentos em que tiveram que encarar a fria receptividade por parte de crítica e público. 

Em 1982 era lançado O Rei da Comédia (The King of Comedy), o quinto filme dessa parceria. Na obra, De Niro interpreta o aspirante a comediante Rupert Pupkin, um homem socialmente desajustado e obcecado pelo show business, com especial devoção ao apresentador Jerry Langford (Jerry Lewis). Em um forçoso encontro, Pupkin tenta convencer o astro de que é uma promessa no mundo da comédia, e Jerry, ciente de que só conseguirá se livrar do homem com uma resposta positiva, recomenda que o mesmo entre em contato com sua secretária no dia seguinte.

A partir das montagens que intercalam realidade e fantasia e na conversa de Pupkin com a atendente do bar, começamos a desvendar a mente perturbada do protagonista, a qual entra numa espiral de equívocos conforme acompanhamos a evolução da trama. Após receber feedbacks negativos da equipe de Langford e passar por momentos constrangedores de recusa, Pupkin perde a noção de qualquer limite e decide que não medirá esforços para conseguir a sua aparição em rede nacional. Além dele, há também a personagem Masha (Sandra Bernhard), outra fã desvairada de Langford e que o acompanha na péssima decisão de raptar o apresentador.


Foto: Fox Film

Apesar do título do filme sugerir um tom de humor, O Rei da Comédia é bem mais perturbador do que aparenta. Por decisão de Scorsese, não há distinção técnica que auxilie para determinarmos o que pode ser sonho ou realidade para Pupkin, e a interpretação é livre, especialmente no desfecho arrasador. É um dos motivos que tornam a obra tão interessante, muito por conta das escolhas do diretor e do roteiro de Paul D. Zimmerman (Viagem com Anita). 

Vale ressaltar que a construção das cenas e os diálogos são extremamente cuidadosos ao tecer críticas à invasão de privacidade, algo que se torna parte da vida de celebridades, e certeiro em retratar o lado oculto da fama, mais previsível e solitária do que é mostrada na mídia. Outro detalhe encantador é a pronúncia do nome do protagonista, sempre confusa para aqueles com quem ele tenta estabelecer uma nova comunicação e que diz muito sobre a forma com que o personagem assimila internamente a falta de atenção e reconhecimento que ele busca contornar em uma escala de aceitação mais ampla.

Uma cena bastante importante para a obra é a grandiosa apresentação de Pupkin na televisão. Aparentemente usando experiências de sua vida para entreter o público, o personagem relembra fatos como abandono na infância, pais alcoólatras e bullying, transformando-os em piada. O resultado é positivo e o público acha graça, sem entender a gravidade do que é dito e apenas alimentando a tragicômica história do protagonista. A todo tempo, há uma inquietude no ar por não sabermos o que esperar das ações de Pupkin, mas há também a comiseração, mesmo no auge de sua inescrupulosidade. Essa complexidade é, a todo tempo, incômoda.

Foto: Fox Film

Mesmo não sendo uma das principais obras lembradas quando falamos do legado de Martin Scorsese ou Robert De Niro para o cinema, O Rei da Comédia é o perfeito exemplo da uníssona versatilidade alcançada pela dupla, sem que premiações sejam necessárias para torná-la grandiosa. E garanto, não é um filme fácil de esquecer.

Ótimo

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