CRÍTICA | Touro Indomável

Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Paul Schrader e Mardik Martin
Elenco: Robert De Niro, Joe Pesci, Cathy Moriarty, Frank Vincent, Nicholas Colasanto, entre outros
Origem: EUA
Ano: 1980


A abertura de Touro Indomável (Raging Bull) é um atestado de que estamos diante de uma obra-prima, mesmo tendo se assistido apenas um ou dois minutos de filme, muito se diz com tão pouco. Robert De Niro (Coringa) "dançando" e golpeando sozinho em câmera lenta, em um ringue escuro, tomado pelos flashes das câmeras fotográficas ao som da melancólica música do italiano Pietro Mascagni. É como se soubéssemos o que nos aguarda nas próximas duas horas de projeção. O letreiro em vermelho vivo surge na tela em preto e branco marcando a cena, e o filme, na história do cinema.

A obra é baseada na autobiografia de Jake LaMotta, um boxeador norte-americano nascido no Bronx, em Nova York, que foi campeão mundial na categoria peso médio, mas que ficou bastante conhecido por ser o primeiro homem a derrotar Sugar Ray Robinson, com quem manteve uma intensa rivalidade. Longe dos ringues, LaMotta era um sujeito de temperamento difícil, violento, que batia na esposa, além de ter certo envolvimento com a máfia italiana.

Não é à toa que é considerado um dos melhores exemplares da reverenciada filmografia de Martin Scorsese (Taxi Driver), já que o cineasta transforma a trágica história do boxeador em poesia cinematográfica. E pensar que ele relutou em assumir o projeto algumas vezes, não apenas por problemas pessoais que o afastaram do ofício, mas também por ser um assumido desconhecedor de esportes em geral, entre eles o boxe. Coube a De Niro a insistência para que seu parceiro dirigisse o filme.

Foto: MGM

Falando em Robert De Niro, o ator vive LaMotta com dedicação impressionante, ao ponto de pararem a produção por algum tempo para que ele tivesse tempo de engordar o suficiente para viver o protagonista em sua decadência. Se hoje estamos acostumados com as mutações de Christian Bale (Vice) ou Matthew McConaughey (Clube de Compras Dallas), é preciso lembrar quem foi o pioneiro. Mais impressionante do que sua transformação física são os detalhes de sua composição. Através do olhar, De Niro é capaz de demonstrar o estado de espírito de LaMotta, que parece sempre perturbado com tudo a sua volta. Trata-se de um homem com perfil autodestrutivo, como se presenciássemos uma panela de pressão prestes a explodir, especialmente nas cenas em que fantasia insistentemente a traição da esposa.

Ao seu lado em muitos momentos está Joe Pesci (Os Bons Companheiros), que encontrou em Joey, irmão do protagonista, o seu primeiro papel de destaque em Hollywood. E dentro desse contexto, impressiona a segurança e o talento que demonstra em tela, fazendo com que se tornasse colaborador habitual de Scorsese. O mesmo não aconteceu com Cathy Moriarty (Cop Land: A Cidade dos Tiras), que apesar da presença magnética em tela, não apenas pela beleza, mas pela forma serena e cheia de personalidade com que vive Vickie, esposa de LaMotta, não conseguiu grandes papéis na indústria dali em diante.

Os três foram indicados ao Oscar de 1981, mas apenas De Niro sagrou-se vencedor, naquela que seria sua segunda estatueta. O filme ainda receberia mais cinco indicações ao prêmio, nas principais categorias, mas venceu apenas mais um, o de melhor montagem.

Touro Indomável ainda se destaca pela belíssima cinematografia em preto e branco de Michael Chapman (Os Garotos Perdidos), conferindo a cada cena um aspecto clássico inexorável. Sábia decisão de Scorsese, que optou por deixar as cores de lado ao perceber que havia algo estranho em enxergar luvas vermelhas nas mãos de LaMotta, já que todos os registros que existiam do lutador da década de 1940/1950 eram em preto e branco. A regra é quebrada apenas quando em determinado momento assistimos vídeos caseiros filmados pela família LaMotta, talvez os únicos momentos de alegria vividos por aqueles personagens ao longo da obra, mesmo que pareça propositalmente uma imagem a ser vendida. Um toque de gênio, de fato.

Foto: MGM

Outro aspecto interessante da direção é a forma como as lutas foram filmadas. O ringue de boxe costuma ser um limitador para muitos cineastas, que normalmente optam por registrar tudo do lado de fora dele, simulando a visão que o espectador teria se estivesse na cena. Scorsese não. O cineasta leva a câmera para dentro do ringue, não apenas conferindo brutalidade aos movimentos de LaMotta (e mais tarde aos golpes que o mesmo recebe), mas destacando a atuação de De Niro, cujo personagem se transformava dentro do ringue, justificando o apelido que dá nome à obra. Mas além disso, Scorsese se atenta aos detalhes, tornando tudo mais humano e visceral, como o vapor do ambiente abafado, o sangue que goteja das cordas do ringue, a água ensanguentada que lava as costas do lutador.

Melancólico como precisava ser, é difícil achar defeitos em Touro Indomável, já que tudo em tela parece coeso, preciso. Daquelas poucas vezes em que todos os elementos de uma produção parecem convergir em algo singular. A diferença de Martin Scorsese para muitos é que ele conseguiu atingir esse tipo de singularidade algumas vezes em sua carreira. E isso é algo realmente notável.

Excelente

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