CRÍTICA | Vice

Direção: Adam McKay
Roteiro: Adam McKay
Elenco: Christian Bale, Amy Adams, Steve Carell, Sam Rockwell, Jesse Plemons, entre outros
Origem: EUA
Ano: 2018

“Cuidado com o homem quieto. Enquanto outros falam, ele assiste. Enquanto outros agem, ele planeja. E quando eles finalmente descansam ... ele ataca.”

Não há frase melhor para descrever a figura pouco popular, mas cruelmente inteligente, da história norte-americana: Dick Cheney, o vice-presidente do governo George W. Bush (2001-2009). E hoje sabemos bem que os vices podem ser tão poderosos quanto os presidentes.

De início, Cheney (Christian Bale) recusou a proposta de ser o número dois de Bush (Sam Rockwell), considerando o cargo mais simbólico do que prático, mas tudo mudou quando percebeu a inexperiência do governante. Se tornou então o braço direito do presidente, e assim o ardiloso personagem passou a comandar porções importantes do governo norte-americano, como as Forças Armadas, por exemplo. Com o atentado terrorista de 11 de setembro 2001, Cheney viu a oportunidade perfeita de exercer seu poder, nos eventos que acabaram culminando na Guerra do Iraque.

Foto: Imagem Filmes

Essa é a história que o diretor Adam McKay (Tudo Por um Furo) conta em seu novo longa-metragem, Vice, produzido nos mesmos moldes de seu prestigiado A Grande Aposta (The Big Short). O cineasta parece ter criado para si tal estilo, no qual aplica muita criatividade, seja na montagem ou na composição das cenas em em si, criando uma sátira adulta, dona de um humor histérico, porém, retratando um tema sério e relevante.

McKay não perde o senso de deboche político mostrado em A Grande Aposta, com direito até mesmo a um narrador irônico. Com uma conexão que só faz sentido mais adiante, o narrador Kurt, ex-veterano do Afeganistão e Iraque, honra a tradição de apresentar um panorama irônico de todo o absurdo e que, se não fosse pelo recurso extraído das narrativas épicas, pareceria quase impossível de ser compreendido.

A intenção de McKay não é perdoar Cheney, mas sim apontar publicamente seus muitos erros. E seu quadro de impopularidade não procura ser revertido tampouco pelo retrato do protagonista Christian Bale. Com a ajuda de uma impressionante maquiagem, do nível de O Destino de uma Nação, o intérprete desaparece e surge apenas seu personagem.

No que diz respeito as atuações, o elenco está afiadíssimo. Além de um Christian Bale (Hostis) irreconhecível, temos Amy Adams (A Chegada) vivendo Lynne Cheney - a esposa do protagonista -, Sam Rockwell (Três Anúncios Para um Crime) como George W. Bush e Steve Carell (A Melhor Escolha) na pele do mentor Donald Rumsfeld. 

Foto: Imagem Filmes

McKay não poupa o bom humor em lembrar que essa é sua interpretação dos fatos, fazendo piada com momentos íntimos de Cheney, que ninguém tem como saber a veracidade, como as tramoias conspiradas com Lynne antes de dormir, por exemplo, substituídas por diálogos de Shakespeare. Bale, por sua vez, nos faz lembrar que Cheney é, sobretudo, um homem medíocre, que sempre quer mais, sem tomar precauções, agindo como um verdadeiro glutão político.

Dito isso, Vice não é apenas mais uma biografia política, é uma obra autoral de um cineasta que conseguiu entender que hoje é necessário mais. É preciso aprimorar a forma, mesmo que o conteúdo seja o mesmo. Trata-se de um bom drama satírico, que prende pela curiosidade inerente sobre o recluso Dick Cheney e pela assustadora atuação de Christian Bale, com a ajuda de um soberbo trabalho de cabelo e maquiagem, é bom dizer. E, especialmente após a cena dos créditos, é possível constatar como o filme reconhece sua importância no contexto atual dos EUA, pois um tema político do passado sempre pode ser relacionado com o presente. E nós, brasileiros, podemos dizer o mesmo. 

Ótimo

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