Top of the Lake | 1ª Temporada


Temos diversos exemplos de sucesso quando pensamos em produções televisivas que tratam da investigação policial como temática principal, principalmente aquelas que se concentram em explorar crimes variados por episódio ou na perseguição de um assassino/serial killer durante toda a temporada. Mas Jane Champion (diretora de O Piano e O Retrato de uma Mulher) e Gerard Lee seguiram um caminho oposto e criaram Top of the Lake, uma série de, aproximadamente, 350 minutos, que não só desenvolve a trama policial como também traz discussões totalmente pertinentes para serem debatidas e destrinchadas.

A premissa inicial está ligada à personagem Tui, uma garota de 12 anos que tenta se matar no lago do vilarejo onde mora. Porém, o objetivo da menina falha e logo descobrem que ela está grávida, o que leva ao seu encaminhamento à polícia local. Paralelo a isso, a detetive Robin Griffin (Elisabeth Moss) está de volta à sua cidade natal para cuidar de sua mãe, que está doente, e acaba assumindo o caso de Tui, logo se envolvendo na investigação e levantando suspeitas de que o abuso sexual fora praticado pelos irmãos ou pelo pai da menina. Após as primeiras definições sobre o caso, Tui desaparece na floresta e diversos outros problemas começam a se desenvolver simultaneamente.


O que diferencia Top of the Lake do restante das produções investigativas é que sua ideia inicial parece bastante simples (sendo Tui o foco), mas logo o roteiro nos surpreende com a profunda camada que vai desenvolvendo de cada personagem. Por mais que algumas situações não se encaixem prontamente na história principal, estão lá justamente para contextualizar outros problemas que são debatidos constantemente na série, sem precisar ser tão explicativa. O núcleo das mulheres que se mudam para a área denominada "Paraíso" mostra bem isso. Atuando como uma guru pouco convencional, a personagem de Holly Hunter não tem papel definitivo na trama, mas sua participação é precisa em diversos momentos, principalmente em seus breves diálogos com Robin, Tui e as outras mulheres que abandonaram suas vidas e parceiros, e decidiram viver em um grupo exclusivamente feminino.

É justamente nesse ponto que vejo o maior acerto da série: a forma como explora o tratamento abusivo e desprezível da maior parte dos homens que participam da história para com as mulheres. O abuso sexual em uma criança já seria ponto chocante o suficiente para abominarmos a atitude de alguns personagens perante o crime. Um deles é Matt, pai de Tui, um homem extremamente violento, dono do tráfico local da cidade e que destrata quase todas as mulheres com quem possui alguma interação, ou a do detetive Al Parker, que claramente não tem intenção alguma de levar o caso de Tui com afinco, tanto por sua amizade com os suspeitos, quanto pela sua própria negligência em se importar com a situação. Inclusive, em diversas ocasiões, o detetive age sem escrúpulos e tenta ultrapassar os limites de sua relação profissional com Robin por meio de outro tipo de comportamento repulsivo: o assédio no trabalho.


Com um passado traumatizante, Elisabeth Moss traz muita humanidade à sua personagem, explorando diversos sentimentos diante dos demônios que voltam a assombrá-la e que se misturam com sua preocupação em ajudar Tui (Jacqueline Joe, que também surpreende). Aliás, em termos de atuação, todo o elenco dá um show e não deixa a desejar em nenhum momento. Todos conseguem trazer a carga emocional de seus personagens nos momentos de maior conflito e é bastante difícil não se emocionar e/ou se envolver com o drama dessas pessoas tão machucadas internamente. 

Outro destaque da série são as locações e a fotografia. Foi realizado um trabalho de primeira, com um formato cinematográfico incrível e muito acima da maioria das produções que vemos na TV. Conforme vamos conhecendo o vilarejo de Laketop, na Nova Zelândia, vemos que aquela paisagem bucólica e tão difícil de ser desbravada está diretamente ligada aos personagens e às histórias que possuem naquele lugar.

Senti que, em alguns momentos, a série se perdeu em trabalhar tantos plots ao mesmo tempo e resolveu algumas coisas com uma certa "preguiça", mas são observações que não estragam o trabalho final. É muito difícil ver um programa televisivo que se interessa em explorar temas tão recorrentes (e ainda pouco levados a sério) na nossa sociedade, como o abuso e a violência contra a mulher, sem se apoiar em resoluções simples e sem poupar o quanto isso é degradante na vida da vítima. Só por isso, a série já é um grande acerto.

Top of the Lake vai te deixar enojado e com raiva da raça humana em diversos momentos, mas isso acontece porque a abordagem funciona e cumpre seu objetivo de forma primorosa.
 

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