O Machismo nas Comédias Românticas


De acordo com o dicionário, machismo é o exagerado senso do orgulho masculino; virilidade agressiva; macheza. É claro que a palavra significa algo bem mais do que apenas uma descrição genérica de um verbete. O termo que, acredite se quiser, não consta no dicionário Aurélio do ano 2006, trata-se de um comportamento expresso por opiniões e atitudes que enaltecem o sexo masculino sobre o feminino.

Ilustrado o óbvio, é de consciência geral que a sociedade, o sistema e o mercado de trabalho são, majoritariamente, machistas. Sendo assim, não é de se admirar que o cinema também seja afetado por essa realidade. Um dos subgêneros mais rentáveis da sétima arte é o das comédias românticas. A indústria aposta sem medo em histórias leves, recheadas de idas e vindas que conquistam o espectador por sua simplicidade e personagens “apaixonantes”. Esse subgênero tem como público alvo principal as mulheres, então, é coerente questionar por que a maioria dessas obras reproduz um discurso tão agressivo. 

Talvez alguém tenha começado a ler esse texto e pensado:

“Nossa, mas cinema é só entretenimento, será que esse tema é realmente relevante?”

A Barraca do Beijo (2018) | Netflix

Bom, o cinema é um meio de comunicação de massa e, por vezes, tem mais força que um jornal para formar opiniões e permitir reflexões plausíveis perante a realidade atual – por mais distante do concreto que possa estar. Tome como exemplo Clube da Luta (Fight Club, 1999), de David Fincher (Garota Exemplar); um longa “surtado”, mas que em seu ritmo frenético permite uma crítica a sociedade do consumo. A ideia não é problematizar as comédias românticas, apenas oferecer um olhar diferenciado em cima desse subgênero que é tão venerado pelo público.

Como já citado anteriormente, a indústria cinematográfica é machista e, claro, isso é refletido nos filmes. A começar pelos classificação de gêneros considerados “masculinos” - como ação e aventura - e os considerados "femininos" - como dramas e romances. As comédias românticas tornam-se o palco perfeito para perpetuar a concepção limitada do que é ser mulher e quais suas expectativas para um relacionamento amoroso; o maior clichê social feminino. A busca pelo amor é a principal ambição de suas protagonistas e caso ela tenha uma carreira profissional bem sucedida, é diminuída ao estereótipo de mulher controladora que não tem tempo para romance e que, por trás de sua personalidade forte e dura, é frágil e só precisa do homem certo para moldá-la a seu bel prazer. 

O maior incômodo não é enxergar isso nos filmes, mas ver pessoas que idealizam uma representação deturpada de afeto, o ansiando; assim como a insistência masculina é bem vista quando um “não” já foi entoado anteriormente. A franquia Cinquenta Tons de Cinza (Fifty Shades of Grey, 2015) é um ótimo exemplo desse febril desejo. Que mulher não sonharia em ter um Christian Grey comprando a empresa onde você trabalha para poder ser seu chefe e controlar sua vida, não é mesmo? 

Cinquenta Tons de Cinza (2015) | Universal Pictures

Outro longa bastante popular é A Verdade Nua e Crua (The Ugly Truth, 2009), de Robert Luketic (Quebrando a Banca), estrelado por Katherine Heigl (Vestida Para Casar) e Gerard Butler (300). Talvez esse seja o arquétipo perfeito de tudo que citei anteriormente. O personagem de Butler – criado para ser o sonho de consumo do público em 2009 – é um misógino acostumado a objetificar o sexo oposto apenas por já ter tido o coração partido no passado; uma característica que é facilmente deixada de lado por sua boa aparência e sarcasmo. Nesse cenário específico fica evidente como, para a indústria, a mulher só pode ser considerada bem sucedida caso tenha um homem ao seu lado.

Que fique claro, pretender um namoro não é motivo de crucificação; afinal todos queremos um companheiro(a) em determinado momento da vida, mas um status de relacionamento não é sinônimo de glória – a não ser que você seja do sexo feminino, como muitos filmes pregam. 

A justificava para esse discurso que subjuga o feminino dentro dos longas-metragens consiste no fato da escassez de oportunidades para mulheres nos cargos de direção e roteirista. Como Frances McDormand (Três Anúncios Para Um Crime) bem colocou em seu discurso, quando venceu o Oscar de melhor atriz deste ano:

"Todas temos histórias para contar, projetos que queremos financiar.”

A Verdade Nua e Crua (2009) | Sony Pictures

A atriz ainda chamou atenção para o termo inclusion rider, uma cláusula que exige que elenco e equipe técnica de uma produção cinematográfica tenham determinado nível de diversidade em sua composição.

Enquanto dependermos apenas da visão masculina sobre as vontades e anseios da mulher, continuaremos vivenciando um resultado utópico – para eles – da mulher estereotipada para satisfazê-los. Gatinhas e Gatões (John Hughes), Quem Vai Ficar com Mary? (Peter Farrelly e Bobby Farrelly), Como Perder um Homem em 10 dias (Donald Petrie), A Barraca do Beijo (Vince Marcello) e muitos outros são também exemplos de comédias românticas com discursos machistas.

Evidentemente existem exceções, mas fica aqui um pedido de atenção e análise delicada para com os filmes desse subgênero. Não é errado suspirar por um homem bonito que aparece nas telonas ou se apaixonar por um personagem fictício, mas é importante tentar não se deixar levar por alguém que, assim como nos filmes, diminua e despreze seus desejos. Não é fofo ou "prova de amor" um cara querer controlar todas as áreas de sua vida, te perseguir, insistir incansavelmente por um “sim” e ser ciumento até dizer chega. Não alimente esse tipo de comportamento e, principalmente, não os reproduza.

Continue se divertindo com as comédias românticas, mas não se deixe encantar por conceitos que minem a sua liberdade. Acredite, é possível fazer as duas coisas.


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