CRÍTICA | Bohemian Rhapsody

Direção: Bryan Singer
Roteiro: Anthony McCarten
Elenco: Rami Malek, Gwilym Lee, Joseph Mazzello, Ben Hardy, Lucy Boynton, Aidan Gillen, entre outros
Origem: Reino Unido / EUA
Ano: 2018


Cercado de polêmicas envolvendo sua produção, que começou lá atrás quando Sacha Baron Cohen (Os Miseráveis) foi escalado para viver Freddie Mercury e depois deixou o filme por divergências criativas no roteiro, passando pela demissão do diretor Bryan Singer (X-Men: Dias de um Futuro Esquecido), acusado de negligência durante as gravações, Bohemian Rhapsody é lançado com um olhar de desconfiança por parte da crítica, ainda que os trailers tenham cumprido com o papel de empolgar os espectadores.

Felizmente a obra ancora-se no trabalho impressionante de Rami Malek (Mr. Robot), que vive o vocalista do Queen com imenso vigor físico e atenção aos detalhes, deixando para trás até mesmo suas diferenças físicas para com o cantor - já que Malek é claramente mais baixo e menos imponente que Mercury -, e o fato de dublar todas as canções - convenhamos, não utilizar a voz original do "Mr. Bad Guy" seria suicídio. Méritos também da direção, que inteligentemente o enquadra em diversos momentos de baixo para cinema (contra-plongée), ressaltando a presença do ator, que ganha toda cena em que está presente. Uma interpretação digna de uma indicação ao Oscar, sem qualquer exagero.

O design de produção, aliado a boa utilização de efeitos digitais, também chama a atenção, especialmente pela reconstituição de época, recriando momentos marcantes da carreira da banda, que se não fossem acurados (mesmo com algumas liberdades criativas), certamente decepcionariam os fãs. Há dois momentos que merecem destaque: o icônico show de Wembley em 1985 - que abre e encerra o longa - e a cena em que vemos Freddie comentar de sua surpresa com a dimensão do sucesso atingido pelo Queen, quando o público do Rock in Rio canta "Love of my Life" a plenos pulmões, trazendo uma nostalgia inevitável ao público brasileiro.

Foto: Fox Film do Brasil

Evidentemente o roteiro toma diversas licenças poéticas para tornar alguns aspectos da história mais atrativos ao cinema. Não sou nenhum especialista no que diz respeito a história da banda, mas tenho minhas dúvidas se algumas das canções foram de fato criadas como mostradas em tela. No entanto, como o foco aqui é Freddie Mercury, algumas decisões soam politicamente corretas demais, ignorando quase que totalmente o vício do cantor em cocaína, por exemplo, algo citado apenas sutilmente em algumas passagens, sem grande alarde ou mesmo a presença da droga encenada. E conhecendo os rumores das famosas festas promovidas por Mercury, a omissão de alguns fatos soam "chapa branca" demais para uma biografia que busca ser fiel a realidade.

A obra então busca explorar a genialidade da personalidade, o que diferenciava aquele homem dos demais cantores de sua geração, não só musicalmente falando, mas como o artista performático que era. Da sua presença de palco aos figurinos extravagantes que gostava de usar, passando por sua auto aceitação enquanto homossexual, tema que ganha destaque dentro da narrativa, estabelecendo um arco dramático bem desenvolvido e solucionado de maneira satisfatória enquanto roteiro cinematográfico.

Há de se destacar o elenco secundário, que mesmo com menor tempo em tela são a escada perfeita para Rami Malek brilhar. Gwilym Lee (O Turista) e Ben Hardy (Mary Shelley) como Brian May e Roger Taylor, respectivamente, são ótimos contrapontos a personalidade de Mercury, enquanto Joseph Mazzello (Jurassic Park: Parque dos Dinossauros) como John Deacon serve como uma espécie de alívio cômico introvertido. Já Lucy Boynton (Sing Street: Música e Sonho) vive Mary Austin, o amor da vida de Freddie, com a doçura e sutileza necessária para que entendamos o drama da personagem e sua influência positiva no protagonista.

Foto: Fox Film do Brasil

Assim é Bohemian Rhapsody, um filme que pode até ter suas irregularidades, mas que emociona e entretêm o espectador com a história de um artista singular, interpretado por um talentoso ator em ascensão. E convenhamos, o fato da obra ter a licença de utilizar todas as versões originais das canções do Queen na trilha sonora é um diferencial dificílimo de ignorar. Te desafio a não sair cantarolando as músicas e revivendo aquela playlist indispensável.

Ótimo

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