CRÍTICA | As Tartarugas Ninja: Caos Mutante

Direção: Jeff Rowe e Kyler Spears
Roteiro: Seth Rogen, Evan Goldberg e Jeff Rowe
Elenco: Micah Abbey, Shamon Brown Jr., Nicolas Cantu, Brady Noon, Ayo Edebiri, Jackie Chan, entre outros
Origem: EUA/Japão/Canadá
Ano: 2023

De cara, o estilo de animação da mais nova incursão das Tartarugas Ninja nos cinemas salta aos olhos. O frame rate e os contornos cartunescos são um aceno generoso a Homem-Aranha: No Aranhaverso (2018) e trazem à memória a experiência recente e incrivelmente satisfatória com Gato de Botas 2: O Último Pedido (2022). Há um entusiasmo genuíno nessa linguagem de animação e que transparece em As Tartarugas Ninja: Caos Mutante (Teenage Mutant Ninja Turtles: Mutant Mayhem), produção da Nickelodeon com direção de Jeff Rowe (A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas) e Kyler Spears. O que ocorre é que essa empolgação não transborda para além dos limites do seu pequeno recipiente.

A história começa contando a origem do resíduo radioativo que transformou um rato de esgoto e quatro tartarugas bebês em criaturas humanoides num estalar de dedos. Tudo se tratava do plano muito pouco razoável de um cientista socialmente inapto que queria construir uma família da animais antropomorfizados por algum motivo. Seu primeiro sucesso, um bebê mosca, conseguiu fugir há tempo com seus irmãos e 15 anos depois se tornou um vilão do submundo do crime tendo sua família como assistentes.

Também 15 anos depois, as quatro tartarugas - Leonardo (Nicolas Cantu), Donatello (Micah Abbey), Raphael (Brady Noon) e Michelangelo (Shamon Brown Jr.) - famosas mesmo para quem não tenha qualquer conhecimento prévio da franquia, são adolescentes ansiosas para viver o mundo humano, mas criadas para evitar este contato a todo custo pelo pai adotivo, Splinter (Jackie Chan), apavorado com o preconceito e discriminação das pessoas. Como bons adolescentes, as tartarugas vão desobedecer e começar uma dinâmica empreitada de lutas contra os crimes da noite ao lado da aspirante a repórter estudantil April (Ayo Edebiri), por quem Leonardo, o mais relutante em contrariar o pai, se afeiçoa. Naturalmente seus caminhos vão se cruzar com os da gangue mutante liderada pelo Super Mosca (Ice Cube).

Nickelodeon Animation Studios

A animação mescla recursos 3D com 2D, se divertindo com abstrações na hora de desenhar cenários, aparatos tecnológicos de ordenha e uma versão pra lá de suja da cidade de Nova York - uma interpretação que me trouxe muito a lembrança da animação Invasor Zim, também da Nickelodeon. Contudo, a comparação inevitável que essa abordagem traz evidencia cenas de ação pouco inventivas no geral, inclusive no confronto final. Um dos momentos mais instigantes tem seu mérito mais em função da montagem dinâmica do que da coreografia e enquadramento.

O filme tem alguns problemas consideráveis em sua estrutura, com uma construção frágil de riscos até a escalada monumental de um perigo para toda espécie humana. Mesmo que a obra flerte com sarcasmo e um humor definitivamente juvenil, a falta de cuidado com as motivações dos seus personagens faz deles não mais que sátiras, deixando uma impressão muito insustentável deles. O Super Mosca é apresentado como o afetuoso irmão de um grupo de desajustados até que sua intenção entre em conflito com a dos protagonistas e assim vê toda a sua família se voltar contra ele e ignorar seu destino ao final da aventura.

Para uma trama que está interessada em discutir, mesmo que na superfície, temas como escolher sua família e lutar contra preconceitos e estigmas, isso nunca surge de maneira recompensadora e, inclusive, anula oportunidades durante a história de dialogar com isso. Existe uma organização humana que age com antagonismo secundário, mas não exerce qualquer relevância para a história além de dar um momento de brilho para o Mestre Splinter e dar a recompensa com uma piada boa que foi sendo construída ao longo da animação.

Mas mesmo esse esquema para o humor da obra se vê fragilizado, afinal, grande parte dos pay offs das piadas nem são elaborações, são só citações avulsas a outros trabalhos culturais. Em dado momento a piada é só eles comentarem de Vingadores: Ultimato (2019). Em outro, um personagem comentar de Attack on Titan. Considerando o quão interessado Caos Mutante está em dialogar com um público jovem e muito presente online, é um movimento lógico: é assim que humor funciona na internet, autorreferente e cínico. Uma pena, pois quando decide se esforçar, surgem momentos espontaneamente engraçados, reforçados por uma ótima escolha de dublagem infanto-juvenil que bota as tartarugas para soar com a voz fanha da puberdade enquanto gravam vídeos para as redes sociais.

Nickelodeon Animation Studios

As Tartarugas Ninja: Caos Mutante é agressivamente voltado para um público mais novo, o que não exime ele de suas falhas, mas esclarece o que sacrificou e o que priorizou. Grande parte da produção ocorre por trocas engraçadas de texto, mais do que por eventos de ação, o que fortalece a familiaridade com o grupo principal, mas prejudica toda noção de risco da jornada. Muitas situações abdicam de fazer sentido apenas para manter a cadência de eventos viva. Vale a brincadeira e certos gracejos durante a história, mas é importante que no caso de uma sequência (praticamente já confirmada e assegurada por uma cena pós-créditos), se atente muito mais para os valores daqueles personagens e a relação entre suas personalidades.

Bom


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