CRÍTICA | Frozen II

Direção: Chris Buck e Jennifer Lee
Roteiro: Jennifer Lee
Elenco: Kristen Bell, Idina Menzel, Josh Gad, Jonathan Groff, Sterling K. Brown, Evan Rachel Wood, Alfred Molina, entre outros
Origem: EUA
Ano: 2019



Antes mesmo de estrear no Brasil, a sequência de Frozen: Uma Aventura Congelante (2013) já atingiu a impressionante marca de 1 bilhão de dólares em bilheteria. Enquanto na América do Norte o filme estreia em pleno inverno, algo que combina plenamente com o filme, aqui debaixo do equador não temos essa sorte, o que certamente não impedirá a animação de arrecadar rios de dinheiro, levando ao cinemas multidões de crianças, assim como uma boa parcela de adultos que foram fisgados pela obra original, mesmo estando fora da demografia prevista.

Absorvendo e aprimorando algumas das principais qualidades que tornaram o primeiro filme um fenômeno, ao ponto de bater o recorde de O Rei Leão (1994) como a animação mais lucrativa da história (e da Disney), a sequência oferece a Elsa (Idina Menzel) o que ela não pôde ter anteriormente: seu lugar como protagonista. Enquanto no longa de 2013 ela é um claro dispositivo de roteiro que funciona como motivação para Anna (Kristen Bell) salvá-la, em Frozen II, Elsa recebe o tempo de tela merecido para se esclarecer enquanto personagem a um público que já se interessa imensamente por ela. Seus conflitos, suas dúvidas acerca de seus poderes - e por extensão sua própria identidade - são a força motriz da trama.

Foto: Walt Disney Pictures

Jennifer Lee (Frozen: Febre Congelante) e Chris Buck (Tarzan) retornam na direção, o que podemos apontar como principal fator para a coesão de ritmo entre as duas obras. Apesar disso, Frozen II sofre com um desafio recorrente à sequências. O charme do primeiro filme está em boa parte na história contida e redonda que encerra, mas o ímpeto de produzir algo maior, mais épico, mais dramático não encontra bons resultados dessa vez. Podendo ser uma qualidade a história não dispor de um vilão preciso, sendo mais uma investigação das personagens sobre seus passados e suas origens por meio dos problemas deixados pelas gerações passadas para as futuras resolverem, esta ótima questão é reduzida a um clímax profundamente esgotado, sem o menor senso de urgência e resolvido com soluções entediantes.

O que é realmente uma pena, pois ampliar a questão familiar tão vibrante entre Anna e Elsa, assim como o vínculo delas com seus pais e a história de vida deles, é uma escolha acertadíssima, que perde força por uma... falta de propósito. É assim que podemos classificar boa parte dos 103 minutos de exibição, onde diversos arcos que desperdiçam tempo de tela são jogados sem a menor necessidade, chegando ao absurdo de introduzir dois personagens e seus nomes apenas para dois instantes breves com o elenco principal - a personagem feminina com Elsa e o masculino com Kristoff - em uma química romântica intencional para nunca mais terem uma fala sequer. Queerbaiting em seu estado mais bruto, ficando a impressão de que isso só acontece para agradar esse público específico, sem o menor comprometimento real com a causa LGBTQI+.

Ainda pior do que isso é a presença de Kristoff (Jonathan Groff), com uma motivação absolutamente desinteressante dentro da trama que nos é apresentada. Seu único objetivo é pedir Anna em casamento, o que nos leva a uma piadinha recorrente, que não tem graça em nenhuma das vezes em que é apresentada. Chega-se ao fundo do poço quando acontece um solo romântico-brega do personagem, cheio de gags com alces falantes e cenografia de boyband , justamente quando estamos entrando no ponto de virada dramático da narrativa. É uma quebra injustificável para um solo merecido para Jonathan Groff (Mindhunter), mas profundamente mal encaixado.

Foto: Walt Disney Pictures

Enquanto Kristoff some ou atrapalha, Olaf (Josh Gad) ganha uma força tremenda no texto, e cada linha que sai dele (em especial na dublagem brasileira, com Fábio Porchat acertando demais no tom) tem o timing cômico certo. Em especial um momento incrivelmente engraçado em que ele reproduz o primeiro filme inteiro para explicar o background aos novos personagens. Ironicamente, sendo talvez a melhor piada da animação, também revela a fraqueza da sequência em precisar constantemente remeter ao primeiro Frozen, criando assim pouco por conta própria.

Levando isso em consideração, o material promocional de Frozen II, que muito pouco revelou da trama principal, destacando mais seu apuro técnico, parece predizer essa condição, pois enquanto a narrativa se desdobra em filmes diferentes, a arte é um estouro hipnótico que arremata toda atenção sem hesitação em ficar abstrata para complementar as sequências musicais, a jornada emocional de Elsa ou criar ambientações grandiosas como a luta entre a protagonista e todo o oceano (de longe o momento mais grandioso do longa, daqueles que a gente anseia poder ficar repetindo em vídeo).

Muito bagunçado em comparação à seu antecessor, Frozen II ainda apresenta refinadas qualidades no desenvolvimento de sua dupla de irmãs, oferecendo precedentes interessantes (nada nem de perto transgressor, mas suficientemente instigante) para o que virá da Disney.

Bom

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