CRÍTICA | Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald

Direção: David Yates
Roteiro: J.K. Rowling
Elenco: Eddie Redmayne, Jude Law, Ezra Miller, Katherine Waterston, Dan Floger, Alison Sudol, Zoë Kravitz, Johnny Depp, entre outros
Origem: Reino Unido / EUA
Ano: 2018


Há dois anos J.K. Rowling estreou como roteirista em Animais Fantásticos e Onde Habitam, dando início a nova franquia do mundo mágico, que se passa décadas antes da existência de seu icônico Harry Potter. Se o primeiro filme foi uma ótima apresentação desse novo universo, cheio de encantamento, equilibrado com um tom mais adulto e sombrio, Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald (Fantastic Beasts: The Crimes of Grindelwald) se mostra claramente como um longa de transição, que talvez não traga a mesma emoção do anterior, mas consegue mexer com os ânimos de qualquer fã desse universo, trazendo um misto de sensações confusas.

Evidentemente a escritora não está nem perto de finalizar suas histórias, visto que a franquia não tem como base apenas um protagonista (o que talvez seja o motivo de tanta confusão) e consegue estabelecer uma relação com a realidade entre dois mundos diferentes que nunca esteve tão forte. E mesmo que este exemplar seja apenas o segundo capítulo de cinco anunciados, já há uma atmosfera sombria e complexa, que promete se acentuar a cada nova obra.

A narrativa começa com Gellert Grindelwald (Johnny Depp) preso e prestes a ser transportado dos Estado Unidos para a Europa, para pagar pelos crimes que cometeu. Os primeiros minutos do longa mostram um rápido embate do vilão para livrar-se dos guardas que o aprisionam, retomando sua liberdade para continuar o seu plano de aproximar-se de Credence (Ezra Miller), do qual a trama gira em torno. Credence, por sua vez, está à procura da família e conta com a ajuda de Nagini (Claudia Kim) para isso. Ao mesmo tempo todos o procuram, especialmente Grindelwald, que quer atraí-lo à causa contra o mundo dos no-maj (pessoas que não são bruxos).

Foto: Warner Bros Pictures

Paralelamente a isso revemos Newt Scamander (Eddie Redmayne), que, após a destruição causada em Nova York, está proibido de viajar ao exterior. No entanto, a pedido de seu ex-professor Dumbledore (Jude Law), o ex-aluno de Hogwarts deve ir atrás do bruxo, contando com a ajuda de seus amigos, especialmente daqueles que vivem em sua maleta mágica.

Desapontado com a decisão do ministério de simplesmente matar Crendence, o domador de animais fantásticos deixa o país clandestinamente e segue para Paris (que nesse filme não apresenta tanta função narrativa quanto Nova York no primeiro, por exemplo) ao lado de Jacob (Dan Fogler) em busca de salvar o jovem. Lá ele reencontram Tina (Katherine Waterston), agora uma auror, que também está atrás do rapaz. 

Aproveitando a boa química entre o casal Jacob e Queenie (Alison Sudol), a sequência mostra que o padeiro manteve suas lembranças e os dois seguem apaixonados. Porém, aqui ambos apresentam uma carga dramática maior, pois têm um grande obstáculo pela frente: a proibição do casamento entre bruxos e no-maj. Esta frustração é o que leva Queenie a acreditar no discurso de Grindelwald, assim como todos os seus seguidores.

Infelizmente, apesar da premissa interessante, o roteiro dá muitas voltas para apresentar personagens e juntá-los para a missão derradeira, não conseguindo se aprofundar no arco narrativo de alguns deles e apresentando apenas soluções superficiais. É claro que alguns temas que soam isolados em um primeiro momento, deverão ter aproveitamento futuro, mas como obra isolada, isso é problemático. Fica clara a confusão em tratar de tantos assuntos em apenas um capítulo, e acredito que essa enorme quantidade de arcos seja o maior problema do filme.

Foto: Warner Bros Pictures

A súbita passagem Queenie para o lado "das trevas", por assim dizer, soa mal explicado e faz a personagem parecer maluca. Outros pontos soam forçados, como a história familiar e os traumas de infância de Leta Lestrange (Zoë Kravitz), que consegue surpreender o espectador, mas parece fora de contexto. Além disso, novos personagens como Theseu (Callum Turner), o irmão mais bem-sucedido e respeitado de Newt, que é auror e noivo de Leta; o famoso e simpático alquimista Nicolau Flamel (Brontis Jodorowsky); e a maeledictus Nagini; poderiam ser melhor explorados, e não serem meras aparições interessantes.

Mas deixando os problemas de lado, para deleite dos fãs, o filme retorna à Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, também apresentando flashbacks da época em que Newt e Leta eram alunos, evidenciando como um completava o mundo do outro enquanto não se encaixavam naquele ambiente. O castelo, com toda sua grandiosidade física e afetiva, dá uma sensação familiar, enquanto o Dumbledore de Jude Law (O Grande Hotel Budapeste) passa vivacidade e personalidade, entregando um retrato próximo com o que o personagem viria a se tornar mais tarde.

Johnny Depp (Assassinato no Expresso do Oriente), mesmo com seus maneirismos, também convence como o assustador vilão da história. O relacionamento e as diferenças de seu personagem para com Dumbledore começam a ser exploradas com consideração neste capítulo e entregam uma parcela de curiosidade em relação ao passado. A relação entre eles é apresentada com sutileza em todos os momentos de flashbacks, nos fazendo querer saber e ver muito mais a respeito.

Os discursos políticos e sociais de Grindelwald formam outro ponto-chave da produção. O momento em que fala para seus seguidores é uma das melhores cenas da obra, onde é possível fazer uma analogia com os atuais governos autoritários no mundo, para os quais o bem-estar das minorias é ignorado para criar um discurso de soberania, aqui representado como o poder dos bruxos sobre os no-maj. Para isso, o próprio vilão apresenta a premonição de uma guerra iminente, caso os bruxos não intervenham.

Foto: Warner Bros Pictures

O fato é que o personagem sabe muito bem como induzir seus potenciais seguidores a pensarem diferente e seguirem seu raciocínio. Ao contrário de Voldemort, que era violento em suas palavras e atos, esse vilão é esperto e meticuloso, pois sabe exatamente qual será o peso de suas palavras. Sua persuasão pode parecer sutil aos olhos de alguns, mas é bem mais poderosa do que os feitiços que profere.

Assim como em Animais Fantásticos e Onde Habitam, temos aqui belas cenas em que são apresentadas criaturas dos mais diferentes locais. Tais momentos servem como um respiro à narrativa, os mais leves e cômicos, que nos lembram de tratar-se de história de magia. Os parceiros de Newt, Pickett e Pelúcio, são personagens determinantes em alguns momentos.

O fato é que este é um filme para os conhecedores do mundo de Harry Potter, que vão conseguir pegar todos os detalhes aos quais J.K. Rowling é tão apegada. Aos que ainda não conhecem muito bem esse universo, podem se sentir desorientados. Trata-se de um longa que propõe-se a ser diferente dos anteriores, e ainda que possua defeitos, tem um desfecho surpreendente, ainda que sem muita sustentação, com a finalidade de deixar o público formulando teorias e se perguntando quais serão os rumos desta franquia.

Ótimo

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