CRÍTICA | A Balada de Buster Scruggs


Direção: Joel Coen e Ethan Coen
Roteiro: Joel Coen e Ethan Coen
Elenco: Tim Blake Nelson, James Franco, Liam Neeson, Tom Waits, Zoe Kazan, entre outros
Origem: EUA
Ano: 2018


Meia xícara de comédia, uma colher de sopa de drama e um copo de reflexão. Adicione bastante poeira, chapéus e cavalos, tudo batido ao som de um musical cartunesco. O resultado dessa impensável mistura é A Balada de Buster Scruggs (The Ballad of Buster Scruggs), nova produção dos irmãos Joel e Ethan Coen (Bravura Indômita) distribuída ao mundo pela Netflix. E admito, apesar de apreensão ao olhar a receita, ao final só queria provar mais e mais do que experimentei.

Ao longo de duas horas e treze minutos de projeção, somos apresentados a seis diferentes contos, todos independentes entre si, algo similar ao recente Relatos Selvagens (Relatos Salvajes, 2014), ou seja, não há ligação entre as histórias ou conexão entre os personagens. O que os une, exceto pelo fato de que todos se passam no velho oeste, é a mesma linha guia: a morte. E com o mapa do tesouro em mãos, os irmãos Coen saem em busca de destrinchar cada vertente de sua temática.

O primeiro conto, que dá nome ao longa-metragem como um todo, é também um dos meus favoritos. Tim Blake Nelson (E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?) vive Buster Scruggs, um pistoleiro invencível, em uma história de tom nonsense, violento e brutal, algo que não combinaria com um musical (a rima foi mais forte que eu), mas a mistura de improbabilidades é o que parece funcionar aqui.

Foto: Netflix

A produção segue para uma das passagens mais curtas de nossa jornada. "Near Algodones" soa como um contraponto a história anterior. Enquanto Scruggs estava sempre um passo a frente da morte, o assaltante de bancos vivido por James Franco (Artista do Desastre) parece ser o cowboy mais azarado do Velho Oeste. E ainda que não seja particularmente fã do ator, o fato é que Franco entrega e acerta o tom debochado que seu arco narrativo propõe.

Ao nos aproximarmos da metade do caminho, a comédia deixa as rédeas para trás e passamos a trilhar uma passagem mais dramática, por vezes, melancólica. A mudança de ares não deve soar como algo ruim, no entanto. Em “Meal Ticket”, Liam Nesson (Busca Implacável) é uma espécie de caça talentos que vaga pelas cidades apresentando seu show itinerante. No palco, um irreconhecível Harry Melling (Harry Potter e a Pedra Filosofal) vive um ator sem braços e pernas. O conto é de longe o mais lento e introspectivo, mas sua mensagem final é uma grande e estrondosa crítica, não somente a indústria do entretenimento, mas também a futilidade tão presente em nosso cotidiano.

Nossa próxima parada conta com uma paisagem de tirar o fôlego. Além da locação e fotografia incrível, “All Gold Canyon” traz Tom Waits (Sete Psicopatas e um Shih Tzu) como um solitário minerador em busca de ouro. Há algumas camadas de entendimento aqui, porém todas giram em torno do mesmo cerne: a ganância do ser humano e até onde ela afeta o seu entorno. Nada se compara ou te prepara o bastante para o capítulo seguinte, no entanto.

Foto: Netflix

“The Gal Who Got Rattled” é inacreditável. Ao seu termino, enquanto meu peito apertava, eu pensava o quanto ele, sozinho, já valeria um ingresso de cinema (ainda que a distribuição da obra tenha sido via streaming). Aqui acompanhamos os irmãos Longabaugh, Gilbert (Jefferson Mays) e Alice (Zoe Kazan), por uma caravana rumo a uma cidade vizinha, onde a caçula será prometida a uma família rica da região. Não irei além disso, pois qualquer coisa que eu disser pode estragar a experiência de quem ainda não assistiu. E acredite, você quer ser surpreendido por essa narrativa, te garanto.

Ao final de nossa jornada, somos introduzidos a “The Mortal Remains”. Não há como não lembrar de todo o primeiro ato de Os Oito Odiados (The Hateful Eight, 2015), já que todo o segmento se passa dentro de uma carruagem, enquanto Tyne Daly (Homem-Aranha: De Volta ao Lar), Chelcie Ross (Instinto Selvagem), Saul Rubenik (Maravilhosa Sra. Maisel), Brendan Gleeson (Harry Potter e o Cálice de Fogo) e Joio O’Neill (The Fall) conversam, trocam histórias e são os responsáveis por nos fazer desembarcar ao fim do dia.

O que A Balada de Buster Scruggs faz de melhor é incomodar. Pode até não agradar em todos os  seus contos, mas certamente, ao final da jornada, você não sairá igual como entrou.

Ótimo


-

Eduardo Fernandes é jornalista e ainda não está recuperado do final do quinto conto.

Comentários

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...