CRÍTICA | Mary Shelley

Direção: Haifaa Al-Mansour
Roteiro: Emma Jensen
Elenco: Elle Fanning, Douglas Booth, Ben Hardy, Bel Powley, Maisie Williams, entre outros
Origem: Reino Unido / Luxemburgo / EUA
Ano: 2017


Assistir filmes sobre grandes autores ou obras é sempre motivo de curiosidade para os apaixonados por literatura. Se por um lado essa experiência pode frustrar aqueles que esperam adaptações fiéis, com riqueza de detalhes, ela também é uma oportunidade para conhecer mais sobre a vida de pessoas que muitas vezes só sabemos o nome. Mary Shelley, lançado em 2017, acompanha a juventude e os amores da autora inglesa mundialmente reconhecida pelo livro “Frankenstein ou o Prometeu Moderno”. A história do cientista Victor Frankenstein e de sua desolada criatura já foi incansavelmente adaptada por inúmeros filmes, contudo, o que muitos não sabem é que atrás dessa trama de terror e drama está uma jovem mulher de apenas 19 anos.

Mary Wollstonecraft Godwin, nascida em 1797, filha de uma das pioneiras do feminismo, tinha somente 19 anos quando escreveu tal obra, motivada por uma “brincadeira literária” entre poetas e escritores entediados (dentre eles, seu então companheiro Percy Shelley e o famoso Lorde Byron). Na trama, acompanhamos o cotidiano pacato de Mary (Elle Fanning), que está sob a tutela de seu pai e de sua madrasta. A escrita e a narrativa de histórias de terror são as suas únicas distrações. A jovem, que sonha acordada, espera pelo dia no qual encontrará sua própria voz e conseguirá fazer jus a herança literária dos pais.

O encontro com Percy Shelley (Douglas Booth), que na época já era um poeta renomado, vira a vida da aspirante a escritora de cabeça para baixo, já que, contrariando as normas sociais do século XVIII, ela decide fugir com o amado e iniciar um relacionamento amoroso sem estar casada. Essa escolha irá afetar completamente o seu destino e, é claro, terá reflexos em sua grande obra.

Foto: Divulgação

Dirigido pela árabe Haifaa Al-Mansour (Felicidade Por Um Fio) e roteirizado pela estreante Emma Jensen, a cinebiografia carrega o mérito de colocar a mulher em cena, além de valorizar o próprio trabalho feminino por trás das câmeras.

Cada vez ocupando mais espaço na indústria cinematográfica, Elle Fanning (O Estranho Que Nós Amamos) consegue transmitir muito bem as contradições da autora inglesa. Um rosto doce que esconde angústias, dores e raiva, que somente começam a transparecer em sua escrita. Completam o elenco protagonista, Douglas Booth (Com Amor, Van Gogh), na pele de Percy Shelley, e Bel Powley (White Boy Rick) como Claire Clairmont.

Apesar de simplificar a trajetória de Mary Shelley, focando no conturbado romance com Percy, o filme é uma boa introdução. De forma muito positiva, a obra consegue equilibrar o romance e os dramas pessoais da autora, deixando claro para o público como cada acontecimento ali mostrado está relacionado e se tornou inspiração para Frankenstein. É possível notar os benefícios gerados pelo olhar feminino da direção e do roteiro, pois alguns temas são tratados com bastante sensibilidade e fugindo de clichês. O lado “revolucionário” de Mary e as dificuldades que enfrentou por ser mulher não ficam de fora da trama. Por exemplo, a única forma de ver seu trabalho publicado foi aceitando a condição dos editores que exigiam que a obra fosse de caráter anônimo e tivesse uma introdução escrita por Percy Shelley, o que levou muitos a acreditarem que ele era o verdadeiro autor. Há mais de 200 anos atrás, a temática do livro era vista como inapropriada para uma mulher.

Foto: Divulgação

Ainda assim, a romantização do relacionamento abusivo de Mary e Percy salta aos olhos como um erro grotesco, ainda mais se levarmos em conta que a temática passou pelo crivo de Al-Mansour e Jensen. As características que colocam Mary Shelley como uma mulher forte e a frente de seu tempo parecem desaparecer perante o romance. A cena final, na qual a autoria do livro é reconhecida a Mary, é um ótimo exemplo, já que, na realidade, anos se passaram antes que a verdade fosse revelada. Somente 13 anos após a publicação original é que a autora pôde fazer uma nova revisão de sua obra, escrevendo um longo prefácio com a gênese da trama. 

Apesar dos tropeços pelo caminho, que acabaram deixando a sensação de que o longa poderia ser mais inventivo e melhor explorado, Mary Shelley funciona bem como uma breve introdução ao mundo da criadora da autora e sua criação, Frankenstein. Uma homenagem singela a sua escrita revolucionária. 

Bom

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