CRÍTICA | Poderia Me Perdoar?

Direção: Marielle Heller
Roteiro: Nicole Holofcener e Jeff Whitty
Elenco: Melissa McCarthy, Richard E. Grant, Dolly Wells, Ben Falcone, entre outros
Origem: EUA
Ano: 2018


Sério, Academia? Mais um ano sem mulheres indicadas na categoria de melhor direção? É inacreditável como as equipes organizadoras por trás da maioria (para não dizer todas) das premiações hollywoodianas insistem em simplesmente se esquecer que o lugar delas no cinema também pode ser atrás das câmeras. Debaixo de uma onda gigantesca e nunca antes vista de posicionamento dentro dessa indústria, que contribuiu para o fortalecimento e surgimento de movimentos que cobram pelo reconhecimento de trabalhos executados por diretoras, surgiu uma ponta de esperança de que finalmente tivessem entendido. Não entenderam. E em 2019 nada de novo foi visto.

Levando em consideração a indicação de Greta Gerwig no ano passado por Lady Bird: A Hora de Voar, o percurso se tornou ainda mais viável. Quem sabe, o início (tardio, diga-se de passagem) de uma "tradição" para se manter nas próximas edições: "nós também vamos indicar mulheres". Por que essa profecia não se manteve tão cedo? O que é preciso ser feito para que trabalhos de mulheres sejam tão reconhecidos quanto àqueles que conhecemos e que são, majoritariamente, dirigidos por homens?

Este ano, Marielle Heller (O Diário de uma Adolescente) poderia ter sido a sexta. Mas não foi. A sexta, em 91 edições do Oscar. Até o momento, apenas cinco mulheres fizeram parte dessa história: Lina Wertmüller, por Pasqualino Sete Belezas (1975); Jane Campion, por O Piano (1993); Sofia Coppola, por Encontros e Desencontros (2003); Kathryn Bigelow, que venceu a estatueta por Guerra ao Terror (2008); e a já citada Gerwig, em 2018. Faça as contas e tire suas próprias conclusões.

Foto: Fox Film do Brasil

Tão injustiçada quanto esse destino é a carreira de escritora da anti-heroína que Heller nos apresenta em Poderia Me Perdoar? (Can You Ever Forgive Me?). Com roteiro do estreante Jeff Whitty e de Nicole Holofcener (À Procura do Amor), o longa é a adaptação homônima da autobiografia escrita por Lee Israel (Melissa McCarthy), uma biógrafa estadunidense, alcoólatra, de temperamento difícil e que parece fadada ao fracasso. Nem sempre foi assim: nas décadas de 1970 e 1980, Israel vivia seu auge e, a obra que escreveu sobre a jornalista e apresentadora de televisão Dorothy Kilgallen, chegou a ter seu nome na lista dos mais vendidos da época, no The New York Times.

Em 1993, completamente endividada e ignorada por sua editora, ela começa um trabalho de pesquisa para escrever uma biografia - que, editorialmente, "ninguém gostaria ler" - de Fanny Brice, atriz de sucesso da Broadway, que se destacou nos anos 1920. Entre idas e vindas a livrarias e acervos históricos, Israel encontra a ferramenta que a faria se tornar conhecida como uma das maiores falsárias na história norte-americana: cartas oficiais escritas pela própria atriz, muitos anos antes. O que começou com um pequeno "PS" inserido no rodapé, se transformou em correspondências fictícias inteiras. De dentro de sua mente voltavam à vida figuras-chaves da cultura do país, nas mais inusitadas situações.

Da maneira como os ambientes fechados prevalecem nas primeiras cenas, se desponta o receio de que esse seja um filme fundamentado em lágrimas do início ao fim. Mas logo é provado o contrário. Um dos recursos que tornam o longa uma experiência deliciosa é seu ritmo lento, mas harmonioso com os fatos, e que vai entregando aos poucos os elementos que estão por vir. O percurso guia a história ao espectador exatamente no tempo certo, deixando de lado a densidade em excesso ou a narrativa arrastada. O caos e o desespero que acompanham o sentimento de fracasso saem das personagens mais de maneira mais tragicômica do que obscura - mesmo que seus destinos estejam caminhando para isso.

Foto: Fox Film do Brasil

Melissa McCarthy (A Espiã Que Sabia de Menos) vai na contramão da sua trajetória como comediante e se insere muito bem no território de um filme mais substancial, o que rende à ela sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Atriz. A indicação é justa, quando analisada isoladamente, mas não é tão certeira se colocada ao lado de nomes esquecidos como os de Toni Collette, de Hereditário; e Nicole Kimdan, em O Peso do Passado.

O papel caiu bem à atriz, que aproveitou em Israel alguns de seus traços cômicos próprios, característicos de grande parte de suas personagens. É seu tom de sarcasmo espontâneo que arranca gargalhadas, principalmente quando está em meio aos jogos de cena com Richard E. Grant (Logan), que interpreta o melhor amigo e parceiro de "negócios" da escritora, Jack Hock, ele que também foi indicado pela Academia na categoria de Melhor Ator Coadjuvante. É fascinante vê-los dividir a tela e se torna impossível não querer participar de suas corridas pelas ruas de Nova York.

O gancho principal para despertar curiosidade em relação ao longa, naturalmente, é todo o plot das falsificações, no entanto, Poderia Me Perdoar? cumpre o papel ocupado por A Forma da Água, no ano passado, ao abordar a solidão e o sentimento de não-pertencimento, com a diferença de que a história de Lee Israel é sobre a tentativa de preencher silêncios impostos dolorosamente entre ela e o restante do mundo. Tanto seu fiel escudeiro, Jack, como seus plágios - reconhecidos pela própria autora como "seus maiores e melhores trabalhos" - são as experiências necessárias para que seus muros, construídos por ela mesma, possam desmoronar gentilmente e, assim, fazê-la enxergar que pode ter sua marca impressa no mundo e, sim, achar que é digna disso.

Foto: Fox Film do Brasil

Enquanto isso, no mundo real, é difícil sentir seu impacto. Poderia Me Perdoar? parece soterrado em relação aos favoritos que foram previamente elegidos pela crítica e, consequentemente, pelo público. Pode ser que tivesse mais vez em uma temporada menos diversificada em número de títulos. A verdadeira questão é se, assim como Lee Israel, o filme conseguirá reaparecer ao longo do tempo ao invés de cair no esquecimento. A torcida é para que sim.

Bom

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