CRÍTICA | Entre Tempos


Direção: Valerio Mieli
Roteiro: Valerio Mieli
Elenco: Luca Marinelli, Linda Caridi, Giovanni Anzaldo, entre outros
Origem: Itália / França
Ano: 2018


O cinema italiano já nos presentou com ótimos romances, de Federico Fellini (A Doce Vida) a Franco Zeffirelli (Romeu e Julieta), passando por Paolo Sorrentino (A Grande Beleza) e tantos outros nomes. Reproduzir os altos e baixos da relação de um casal poderia soar clichê após tantas produções de qualidade, mas não com a franqueza e sensibilidade que o cineasta Valerio Mieli (Dez Invernos) demonstra em Entre Tempos (Ricordi?).

Um homem (Luca Marinelli) e uma mulher (Linda Caridi) se conhecem durante uma festa e se apaixonam instantaneamente. Eles se tornam um casal, mas com o passar do tempo caem na monotonia, com cada um colecionando alegrias, tristezas, angústias e frustrações. Enquanto o rapaz crê em um futuro grandioso, a moça é melancólica e presa ao passado. Sentimentos e dúvidas são compartilhados em tela por dois protagonistas que poderiam representar amantes de todo o mundo, seja em maior ou menor grau.

A beleza do roteiro de Mieli é a forma como ele se apresenta, sempre trazendo o ponto de vista de um dos jovens, com versões diferentes dos mesmos eventos, em paralelo e em períodos de tempo incertos. Se de início temos uma narrativa linear, aos poucos a montagem causa encantamento apresentando o fluxo de consciência do casal e suas constantes mudanças. Há, por exemplo, sequências idênticas, mas com figurinos diferentes, recurso usado propositalmente para deixar margem para o público se inserir no contexto e tirar suas próprias conclusões acerca das memórias de cada um deles, bem como seus aprendizados.

Foto: Cineart Filmes

Os comportamentos dos personagens ilustram a culpa e o medo de recordar o passado, mas um deles se dá de maneira realista. O rapaz tem consciência de que os relacionamentos começam e terminam, já a moça enxerga as coisas mais pelo lado lúdico e da fantasia, uma espécie de mundo encantado e cheio de prazeres, apesar das armadilhas que a vida arma. O contraponto, no entanto, é perfeitamente traçado, sem maniqueísmos ou exageros, ambos representando arquétipos que se encaixam em um universo amplo de relações, o que faz com que cada espectador se identifique com os protagonistas, muitas vezes se enxergando no universo do qual fazem parte.

O trabalho de Mieli é digno de elogios, apresentando uma história encantadora, provocativa e atraente visualmente, muito em função das composições e dos enquadramentos escolhidos. O sentimento de libertação também é forte aqui, algo que Fellini fazia muito bem com seu cinema.

A ideia de sair do lugar comum, mesmo com um assunto explorado à exaustão, foi muito bem sucedida, fazendo de Entre Tempos uma grandiosa experiência.

Excelente

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