CRÍTICA | Era Uma Vez em... Hollywood

Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino
Elenco: Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Margot Robbie, Al Pacino, Kurt Russell, Dakota Fanning, Timothy Olyphant, entre outros
Origem: EUA / Reino Unido / China
Ano: 2019


Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) é um ator que já viveu dias melhores em sua carreira. Após estrelar um seriado de sucesso por alguns anos, ele agora faz apenas participações especiais em programas e pilotos de terceiros, lutando contra suas inseguranças e tentando voltar a ser protagonista na indústria. Cliff Booth (Brad Pitt) é seu dublê, ajudante pessoal e melhor amigo, uma espécie de "faz-tudo", que o respeita como poucos e o encoraja a novos projetos, especialmente por depender das ações do primeiro para se sustentar. Alheia a dupla está Sharon Tate (Margot Robbie), atriz em ascensão na carreira, vizinha de Dalton e esposa do diretor Roman Polanski (Rafal Zawierucha), uma mulher de extrema doçura e carinho com o próximo.

Ainda que apresente personagens tridimensionais deveras interessantes, o roteiro de Quentin Tarantino (Django Livre) pouco se importa em construir grandes arcos dramáticos para eles, ou mesmo de criar premissas e recompensas ao longo da narrativa (mesmo que elas aconteçam eventualmente). A intenção aqui é outra. Rick, Cliff e Sharon são peças escolhidas a dedo para se retratar uma época singular dentro da cultura norte-americana, mais precisamente a Hollywood de 1969. E dentro dessa proposta, Era Uma Vez em... Hollywood (Once Upon a Time... in Hollywood) é muito bem-sucedido.

Ao misturar realidade e ficção, Tarantino parte do princípio de que o espectador conhece sobre os eventos ocorridos no período em que sua história se passa, e isso pode ser um problema para quem assiste a obra desavisado. Ter noção mínima do contexto social dos Estados Unidos no fim da década de 1960 e dos fatos ocorridos com Sharon Tate (uma entre algumas das personalidades reais representadas em tela) se mostram essenciais para que o filme funcione em sua plenitude. Algo diferente, por exemplo, de Bastardos Inglórios (2009), cuja compreensão mundial dos eventos da Segunda Guerra corroboram para o sucesso da sátira apresentada.

Foto: Sony Pictures

A reconstituição de época é um show a parte, orquestrado de forma minuciosa por Tarantino. Das locações escolhidas a dedo de uma Los Angeles romantizada, aos carros e figurinos que falam muito sobre a personalidade de cada personagem, passando pela cinematografia de Robert Richardson (Os Oito Odiados), que valoriza o verão californiano e traz identidade para cada rua, campo ou cenário visto em tela. São nos pequenos detalhes, no entanto, que o cineasta mostra a sua maturidade na função, seu amor por aquela cidade e, principalmente, sua paixão pelo cinema e pela televisão clássica.

É difícil encontrar alguma cena em Era Uma Vez em... Hollywood que não faça referência a algum elemento da indústria do entretenimento da época, seja na excelente trilha sonora, nos programas de rádio que tocam incessantemente enquanto os personagens dirigem, ou mesmo nos seriados que volta e meia permeiam os televisores de cada cenário. Nos cartazes e propagandas espalhadas pela Sunset Boulevard as homenagens ao cinema saltam aos olhos. É lá, por exemplo, que está localizado o Cinerama Dome, cinema de rua icônico que serve de cenário para uma das melhores cenas do filme, quando Sharon Tate assiste a si mesma em uma cópia de Arma Secreta Contra Matt Helm (The Wrecking Crew, 1968), curiosa e encantada pelo impacto positivo de seu trabalho na audiência.

Falando em Tate, é importante ressaltar que sua figura é tratada com imenso respeito e importância no longa, mesmo com tempo reduzido de tela. Margot Robbie (Eu, Tonya) a vive como um ícone de pureza, um simbolo de inocência que representa toda uma década, inocência essa que se perdeu para nunca mais ser encontrada. Assisti-la traz um misto de sensações, pois ficamos encantados por sua personalidade e ternura, mas entristecidos por saber de seu fatídico destino. Daí a importância do contexto histórico.

Outras figuras famosas também são representadas aqui, algumas com um tom de comicidade que faz bem ao filme, como quando Bruce Lee (Mike Moh) se gaba de suas façanhas, ou quando Steve McQueen (Damian Lewis) se lamenta de uma desilusão amorosa.

Foto: Sony Pictures

Leonardo DiCaprio (O Lobo de Wall Street) entrega a competência habitual de sempre, representando Rick Dalton com uma leve gagueira quando inseguro, um sujeito de emoções e atitudes variantes, mas que cativa o espectador com o amor que nutre pela profissão que exerce. Dalton não busca necessariamente fama e riqueza, mas ser bem-sucedido e reconhecido por seu talento. O personagem - livremente inspirado na trajetória do ator Burt Reynolds (O Esquadrão da Morte) - é a ponte necessária para que Tarantino brinque com os bastidores das produções televisivas, fazendo com que ficção e realidade se misturem de forma quase imperceptíveis, deixando as piadas e viradas a cargo dos detalhes. Algumas cenas acabam se estendendo além do necessário, é bem verdade, mas o fio da meada não é perdido.

Algo que deve atingir certo consenso é que Brad Pitt (Onze Homens e um Segredo) rouba o filme para si (e digo isso da melhor forma). Os momentos em que Cliff Booth surge em tela são magnéticos, catapultados pelo ar misterioso que ronda o personagem. E é gratificante ver o talento de Pitt, já que vive um personagem completamente diferente do Tenente Aldo Raine, personagem que viveu em sua outra colaboração com Tarantino. Sua caracterização é precisa. Um dublê experiente, profissão que lhe rendeu muitas cicatrizes. Não se sabe ao certo o motivo de seu apreço por Dalton. Talvez seu passado suspeito, que é sugerido de forma inteligente pelo roteiro, deixando a cargo do espectador escolher a verdade.

Ainda sobre Booth, arrisco dizer que seu figurino -  os óculos escuros, camisa havaiana, calça jeans e sapato de camurça - já entrou para o panteão de vestimentas "cools" de Quentin Tarantino, ao lado do macacão amarelo de Beatrix Kiddo em Kill Bill (2003-2004) e dos ternos surrados dos capangas de Cães de Aluguel (1992) e Pulp Fiction (1994). Figuras que fazem parte para sempre da cultura pop mundial.

Foto: Sony Pictures


Era Uma Vez em... Hollywood ainda reserva boas surpresas em seus desfecho, que não me atreverei a descrever aqui, pois não quero estragar a experiência de ninguém. Apenas posso afirmar que é tudo que podíamos esperar de um filme de Quentin Tarantino. O ápice de um longa-metragem até certo ponto comedido, que quebra expectativas de forma que não estamos acostumados, a não ser em um exemplar do diretor.

O take final é belíssimo. Dá sentido ao título da obra. Aquece o coração de qualquer cinéfilo. E fico ainda com a impressão de que gostarei ainda mais dele quando assisti-lo novamente. Ah... e não levantem da poltrona antes de assistir a uma hilária cena pós-créditos, que faz referência sutil (ou nem tanto) a toda a filmografia desse grandíssimo cineasta.

Ótimo

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