CRÍTICA | A Última Tentação de Cristo

Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Paul Schrader
Elenco: Willem Dafoe, Harvey Keitel, Barbara Hershey, David Bowie, entre outros
Origem: EUA/Canadá
Ano: 1988


Martin Scorsese (O Rei da Comédia) aos 14 anos fez seminário e pretendia se tornar padre. Porém, acabou desistindo da ideia para se dedicar a sua grande paixão: o cinema. Por isso, muitos de seus filmes trazem um pouco de sua devoção católica ou elementos e simbologias religiosas – unindo então suas duas obsessões, a fé e os filmes.

Se em 2004, Mel Gibson (O Gênio e o Louco) gerou polêmica com seu controverso A Paixão de Cristo, por causa de suas cenas de extrema violência, em 1988, Scorsese já tinha provocado controvérsias com um longa-metragem de mesma temática, mas por motivos diferentes – pelo retrato da humanidade de Jesus Cristo, refletindo sua luta contra diversas formas de tentações, medos e anseios.

A Última Tentação de Cristo (The Last Temptation of Christ) é baseado no romance homônimo de Níkos Kazantzákis, de 1951, e traz um roteiro escrito por Paul Schrader (Taxi Driver), que não segue fielmente aos evangelhos, tomando algumas liberdades em relação à interpretação bíblica mais aceita da vida de Jesus, o que gerou polêmica e protestos de fundamentalistas, que queriam a representação convencional do filho de Cristo e também pela cena da provação final – que foi tirada de contexto e, sem dúvida mal interpretada.

No longa, Jesus de Nazaré (Willem Dafoe) é um carpinteiro atormentado por vozes e dores de cabeça, que vezes pensa virem de Deus, lhe reservando um destino maior, outras pensa virem do demônio. Ele se encontra perdido entre viver uma vida normal com a mulher que já amou, Maria Madalena (Barbara Hershey), e o chamado divino, que lhe encarrega de ser o salvador. Então, terá que compreender seu próprio caminho e conflitos internos, passando pela maior das tentações para seu sacrifício.

Foto: Universal Pictures

Willem Dafoe (Projeto Flórida) se mostrou a escolha perfeita para interpretar Jesus. Com uma atuação impecável e verdadeira, o ator consegue passar todas as nuances, hesitações e conflitos internos que seu personagem vive entre permanecer com sua vida humana, abraçando as tentações, ou aceitar o seu dom sagrado. Essa dualidade é o que marca e conduz a obra, a batalha interna travada entre carne e espírito, que lhe causa medo.

Ele fica entre acreditar no chamado de Deus, mas ao mesmo tempo teme que as vozes sejam demoníacas. Acredita no destino divino, mas pensa que esteja sendo levado pelo seu próprio ego e, por fim, acredita que seu caminho é o seu sacrifício, mas também quer ter uma vida normal. Uma das cenas mais impressionantes é a de sua redenção final, onde Dafoe passa toda a angústia do personagem implorando por perdão.

Judas Iscariotes (Harvey Keitel) também tem papel fundamental no filme, já que é construída uma relação de parceria dele com Cristo. Enviado para matá-lo, Judas fica ao seu lado e confia que ele trará a libertação dos judeus usando da violência, mas acaba seguindo os princípios de amor e compaixão, acima de qualquer questão política. Ao contrário dos Evangelhos que contam da traição de Judas ao entregar Jesus aos soldados romanos que o crucificaram, a obra mostra uma traição atendendo a um pedido do mesmo.

Outras duas participações fundamentais são as de Andre Gregory (Celebridades), como João Batista, e do ícone David Bowie (O Grande Truque), como Pôncio Pilatos. Com João ele é batizado e tem uma importante discussão sobre sua visão de amor e espiritualidade, já com Pôncio Pilatos, há um debate importante sobre crença.

Foto: Universal Pictures

A presença divina pode ser notada desde o início do longa, já que metaforicamente a câmera de Scorsese se move rapidamente pelas árvores, como um espírito inquieto se movendo pelo vento, perseguindo Jesus – que acorda assustado e paranoico. O cineasta conduz o filme precisamente, apesar do relativo baixo orçamento disponível, contando ainda com a cinematografia impactante de Michael Ballhaus (Drácula de Bram Stoker), especialmente nas cenas da crucificação.

A trilha sonora fica por conta do lendário vocalista da banda Genesis, Peter Gabriel. E não poderia ser melhor, já que casa perfeitamente com a obra ao criar uma atmosfera intensa e hipnótica, combinando com as paisagens desérticas.

Essa adaptação sempre foi um projeto muito pessoal para Scorsese, que já disse em entrevistas que quis propor um conhecimento melhor sobre Jesus, para que se possa compreender a si mesmo. Como Jesus é tanto divino como humano, as pessoas podem olhar para a sua própria humanidade e refletir.

Por toda a sua filmografia, o diretor analisou conflitos e demônios internos de seus personagens, principalmente com Travis Bickle (Robert De Niro) em Taxi Driver (1976), um homem tentando resolver seus próprios problemas (atribuídos aos problemas do mundo) através da violência. O Jesus de Dafoe é mais complexo, porque usa tanto a violência quanto o amor para enfrentar seus questionamentos internos. Sua luta, é a favor e contra Deus. Em um de seus maiores momentos de fraqueza no filme, ele clama, mostrando o fardo que carrega:
“Deus me ama. Eu sei que ele me ama. Quero que ele pare.”
Foto: Universal Pictures

A Última Tentação de Cristo propõe uma reflexão sobre o verdadeiro significado do sacrifício, mas não apenas o sacrifício religioso, mas sim pelo valor do que uma pessoa acredita. Mostra um homem em sua própria jornada, com lutas internas e tentações, até encontrar seu próprio martírio. Martin Scorsese fez aqui uma das obras mais reflexivas e poderosas de sua carreira, se aprofundando em uma análise filosófica dessa simbólica figura religiosa.

Excelente

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