Tuca & Bertie | 1ª Temporada


Com o aval dado no ano passado para a produção da série, Tuca & Bertie desponta com dez episódios em sua primeira temporada, assinada por Lisa Hanawalt, uma das principais animadoras e produtoras de BoJack Horseman, série que exerce grande influência aqui, já que somos convidados a acessar um mundo semelhante e ao mesmo tempo estrangeiro àquele proposto pela celebridade-cavalo mais polêmica dos últimos tempos.

Tuca & Bertie introduz as personagens título como grandes melhores amigas, conectadas por um vínculo afetuoso evidente. Temos uma tucana expansiva, positiva, barulhenta e desempregada, Tuca (Tiffany Haddish), em uma dinâmica elétrica com sua amiga tordo ansiosa, meticulosa e sonhadora, Bertie (Ali Wong). As cores efusivas, o humor saltitando entre o nonsense e o sarcástico e as dinâmicas de animais antropomórficos imediatamente evocam um comparativo com BoJack Horseman, mas é preciso rejeitar essa lógica o mais cedo possível. Talvez até para demarcar essa separação o primeiro episódio é um dos que mais alucinados, explorando o surrealismo dos ambientes e da narrativa.

Onde BoJack brinca com um realismo sórdido salpicando com o humor imediato do design de seu universo, Tuca & Bertie eleva a um novo patamar de insanidade as liberdades que assume para corromper realismos materiais, sabendo as dosagens certas quando se trata de trafegar em territórios mais complexos para seus personagens. As estradas não fazem sentido, a geografia básica é descartada e neste universo batatas e plantas também são personagens, mesmo que no fundo. A vizinha planta Draca (Shamir Bailey) é uma sacada hilária sempre que surge.

Foto: Netflix

Focando principalmente na amizade das protagonistas, a série não simplesmente surge em um momento aleatório da vida de ambas. No primeiro episódio vemos Tuca se mudar para o apartamento no andar de cima para que Bertie possa morar com seu namorado pássaro Speckles (Steven Yeun). Isto tudo com ambas num precipício da vida adulta cujos questionamentos são cada vez mais urgentes, sobre as frustrações com as promessas vazias alimentadas pelo sistema que nos desenvolve para sermos servis. Não se pode mais fingir que são adolescentes cheias de possibilidades pois as demandas da vida moderna estão fazendo suas cobranças com frequência. 

Essa interferência nas casas causa em Tuca reflexões graduais durante a temporada sobre seu lugar no mundo, sobre família e aspirações. Para Bertie, estar morando com o namorado a provoca os desafios de conciliar a experiência de agora com o que já será o resto da sua vida, sempre apavorada com cada escolha. A insatisfação com o atual emprego e um desejo reprimido pelo confeiteiro local a enchem de novas perguntas. Apesar de diferentes, a série esclarece muito organicamente como opostos tão claros são tão aproximados, como uma contribui para extrair da outra a melhor versão de si mesma. Isso é estabelecido com belo cuidado para também logo em seguida nos revelar os problemas dessa relação, as concessões que tem de ser feitas e os ressentimentos acumulados.

No momento em que vivemos a discussão sobre saúde mental rompe seu caminho para o grande cenário pois não se pode mais desviar desse tema avaliando-o como mero capricho. É fundamental que essa conversa seja tida com franqueza, mas o não acompanhamento adequado acoberta muito um comportamento de atribuir diagnósticos. Nesse prisma é fácil já enxergar o público rotulando a amizade de ambas como "tóxica", mas a verdade é que relações de longa data estimulam muito de nós em nossas múltiplas facetas. Sobre atitudes inadequadas e hostis ao convívio, a animação trata bastante, inclusive. Sem jamais ignorar um leque específico de problemas experimentados por ambas ao estarem no mundo enquanto mulheres. 

Foto: Netflix

Não são muitas as séries animadas que se direcionam ao público feminino, aos seus desgostos e prazeres comuns, por isto Tuca & Bertie goza de um cenário rico e pouco explorado para plantar suas ideias, suas estratégias de conversação. Mesmo começando morna, até para nos desenhar delimitações específicas da animação, a cada episódio um novo terreno é alcançado e poucos detalhes são muito bem acrescentados como por acaso até o momento que se percebem fundamentais como a luta de Tuca para permanecer sóbria ou a natureza da relação de Bertie com outros homens em sua vida em situações de autoridade. 

Os 25 minutos de cada episódio são muito bem aproveitados num saldo geral para elaborar o conflito crescente em um ponto de lidar com a vida adulta em que não há mais volta. Essa tentativa de retorno pode ser tanto um refúgio (como Tuca se recusa a ter maturidade em muitos momentos) quanto um pesadelo (como Bertie evita pensar no passado ou conversar sobre ele mesmo com seu namorado). Usufrui das cores exuberantes da produção de BoJack, mas é sua própria história, sua própria aventura feminina sobre a desventura das mulheres em um mundo dominado por amargor, mas fervilhando de boas experiências disponibilizadas pelo amor que as pessoas são capazes de nutrir entre si apesar de seus defeitos.

Ótimo

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