CRÍTICA | A Luz no Fim do Mundo

Direção: Casey Affleck
Roteiro: Casey Affleck
Elenco: Casey Affleck, Anna Pniowsky, Elisabeth Moss, entre outros
Origem: EUA
Ano: 2019


Usando uma premissa distópica para adentrar numa filmagem de tônica naturalista A Luz no Fim do Mundo (Light of My Life) é imprevisível em cada direção possível de sua discussão. Antes de tudo é um longa movimentado por uma dinâmica de perseguição. Seu material promocional tímido sugere uma trama carregada de suspense, mas o que temos é uma lenta aventura sobre paternidade e proteção.

Há comentários implícitos o tempo todo sobre o perigo de se viver no mundo enquanto mulher, algo que soa irônico, já que o diretor, roteirista e protagonista Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar) esteve envolvido em processos judiciais por assédio sexual contra colegas de trabalho, todos muito bem ressaltados durante a corrida para o Oscar 2017, o que não o impediu de levar a estatueta para casa (mas curiosamente não esteve presente no ano seguinte para premiar a Melhor Atriz de 2018, como é de praxe).

Se a alguém soa inadequado relembrar estes eventos do passado (afinal as partes se resolveram com acordo, então, no que diz respeito a justiça está tudo nos conformes), vale lembrar sobre o que A Luz no Fim do Mundo trata.

No tempo cronológico da história, uma doença dizimou a população feminina no mundo a algo próximo a zero. A mulher do protagonista sem nome vivido por Affleck, interpretada por Elisabeth Moss (The Handmaid's Tale), não sobrevive, mas a filha do casal, Rag (Anna Pniowsky), segue com o pai disfarçada de garoto para o caso de algum passante.

Foto: Imagem Filmes

Nunca é esclarecido verbalmente o porquê de se ocultar o gênero da jovem, apesar de tratar-se de uma obra com muitos diálogos. Isto é, não é como se o filme precisasse presumir um motivo pelo qual o mundo exterior é perigoso às meninas. Sem qualquer vírus ficcional nossa sociedade já é acometida por um desprezo velado e insensível às vidas das mulheres. Inúmeros motivos são prováveis para que ocorra uma caça à Rag e seu pai, e não precisamos mais do que isso para sermos mobilizados pela paranoia e ansiedade de vermos aqueles personagens em constante perigo. O protagonista, em sua própria imaginação, é capaz de ruminar motivos obscuros pelos quais sua filha seria alvejada.

Apesar da lógica textual implicar uma situação de perigoso constante, o ritmo do longa é vagaroso, ao mesmo tempo em que abre longos espaços apenas para pai e filha interagirem, para o primeiro sofregamente arriscar comunicações, narrativas mal elaboradas e lembranças vacilantes. A filha, muito melhor adaptada àquele mundo, sendo a única que conhece, indaga, questiona, tem curiosidade. Lê o tempo todo e quer entender o que será de seu futuro nas piores circunstâncias. Para protege-la, o pai deve compartilhar a verdade. Nossa fantasia coletiva comum sobre a figura paterna supõe um ícone impenetrável, invulnerável, acima de qualquer virulência mundana, mas o filme aplica situações práticas e desafios ao protagonista onde, para proteger sua filha, é preciso estar vulnerável, apto a tal sofrimento.

Sua pouca naturalidade com a comunicação e com o carinho são uma constante de um mundo masculino onde isso é rejeitado, como se possibilidades de afeto fossem uma traição ao código de conduta ancestral do gênero. O personagem de Affleck está em constante conflito para romper sua própria masculinidade e se tornar o pai necessário para Rag, o que implica em uma série de mudanças ao decorrer da narrativa. Mudanças que nunca se encerram, mas que estão em constante processo de se revelar o que é um homem. O contraste com a filha enriquece a todo momento a história e esclarece todas as dificuldades perpassadas para descobrir como é uma boa paternidade.

Foto: Imagem Filmes

Sempre partindo da perspectiva do pai, A Luz no Fim do Mundo acessa e entende a confusão e a inexperiência masculina para esse cargo, mas não retira do pai a esperança de se tornar melhor por uma pessoa que ama, por alguém que deve proteger. No entanto, por esse ângulo, a obra nunca parece estabelecer qual o sofrimento de viver como mulher, qual o perigo, qual o medo. Todos os medos estão presentes, todo o ambiente é suspeito. O contexto deslocado de uma sociedade aparentemente justa e equilibrada como a nossa põe o personagem masculino na experiência de constante pavor vivida por mulheres na realidade factual.

A presença de apenas duas atrizes, uma disposta só em pontuais flasbacks, é outro atributo que reforça um empurrão na visão masculina para fora de seu centralismo, fora de seu ego. Mas pode também ser visto como desinteresse do diretor em deixar que mulheres participem ativamente de histórias onde são objeto da discussão. Enquanto crítico cis masculino, minha perspectiva é limitada para dizer o quanto Affleck é capaz de vestir o homem na roupagem do temor constante feminino, estando minha análise fadada a acompanhar as delimitações da minha ótica, entretanto não deixo de pensar que é um filme honesto em suas escolhas e na postura que assume até o fim.

Se Casey Affleck tivesse apenas como intenção promover um longa-metram de viés feminista para limpar sua barra diante da mídia, o resultado teria uma campanha mais geerosa de divulgação e poderia abraçar tantos outros recursos plásticos para falsear o discurso em prol das mulheres numa lógica de mercado que em resumo não altera nada do status quo. Desde que Hollywood aprendeu de vez como pode capitalizar em cima de disputas de representatividade a regra tem sido essa, mas A Luz no Fim do Mundo, composto com uma gentileza ímpar, segue na contramão dessa lógica e soa muito mais como um projeto pessoal. O quanto os capítulos recentes da vida profissional de Casey Affleck invadem essa produção são um tópico para longo debate, mas sem sombra de dúvida é um filme inesperado; tanto pelo que é quanto por quem fez. 

Ótimo

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