CRÍTICA | Jojo Rabbit

Direção: Taika Waititi
Roteiro: Taika Waititi
Elenco: Roman Griffin Davis, Thomasin McKenzie, Scarlett Johansson, Taika Waititi, Sam Rockwell, Alfie Allen, Rebel Wilson, entre outros
Origem: Nova Zelândia/República Checa/EUA
Ano: 2019

Taika Waititi (Thor: Ragnarok) encontrou no livro "Caging Skies" (2004) a matéria bruta necessária para seu novo roteiro. Um texto árido, protagonizado por um menino cruel e ignorante iniciado na Juventude Hitlerista no ápice da Segunda Guerra Mundial. Deu-se assim início a Jojo Rabbit, uma bem humorada aventura de um jovem garoto nazista com seu melhor amigo imaginário, Adolf Hitler (interpretado pelo próprio diretor e roteirista).

Apesar da nítida provocação malandra em sua sinopse, o filme incorre em caminhos muito menos controversos do que poderia e assume uma estrutura bem mais cômoda e agradável para todos os públicos. Basicamente a trama acompanha as peripécias e trapalhadas de Jojo (Roman Griffin Davis) para se tornar um grande soldado da infantaria nazista sob a tutela do Capitão Klenzendorf (Sam Rockwell). O garoto não leva o menor jeito para a coisa e as consequências são imediatas, levando-o a ser separado de seu grupo para ficar sob cuidados domésticos.

Até então Jojo só entendia como suas companhias o afetadíssimo Hitler imaginário, quase um Dinossauro Barney de coturno e a feérica figura de sua mãe Rosie (Scarlett Johansson), mas descobre apavorado a partilha dos esconderijos da casa com uma garota judia chamada Elsa (Thomasin McKenzie), protegida de Rosie. Imediatamente as crenças do protagonista são desafiadas enquanto é incapaz de intimidar a menina para fora do seu lar, rompendo etapa por etapa os delírios dos quais se convenceu sobre o povo judaico por meio da tenebrosa propaganda fascista.

Foto: Searchlight Pictures

Ao passo em que começa a questionar a benevolência da causa nazista, seu Hitler imaginário progressivamente abandona a comicidade e se torna uma ameaça, uma imposição cruel e irremediável. A guerra deixa de ser uma parque de diversões  - como é inicialmente introduzida pelo treinamento juvenil - e aparece assombrosa e infalível, rompendo abruptamente com as sequências oníricas de Jojo, distraidamente sendo uma criança normal, para então se deparar com a monstruosidade do seu contexto e suas consequências. Em especial uma cena que remete às sapatilhas vermelhas da mãe sintetiza muito claramente a matriz da obra.

Apesar de seguir uma estrutura básica e confortável demais para a sua própria premissa, Jojo Rabbit arranca uma força assombrosa de seu elenco infantil. Todas as cenas entre as duas crianças fluem impecáveis entre o humor e o horror, a incerteza dos motivos para se ter medo aliada a certeza de que seja o que for, está chegando. Chega a ser curioso como um diretor famigerado pelo seu timing para a comédia absurda - em especial no seu maravilhoso O Que Fazemos Nas Sombras (2014) - tenha errado a mão desse aspecto em um filme que pede mais dramaticidade a partir de certo momento. 

A performance do Hitler é interessantíssima e bastante divertida no início, mas não casa com o resto do longa, mesmo sendo um agente narrativo para a descrença do protagonista sobre o sistema. Isto porque em mais de uma ocasião parece que Jojo Rabbit abre mão de sua narrativa apenas para mais um intervalo de esquete deste personagem. Eventos interessantes são interrompidos por um elemento demasiado externo a toda ação efetiva do filme. Isso para não comentar algumas performances tronchas como a personagem de Rebel Wilson (Megarromântico) fazendo... bem, o que ela faz em todos os seus papéis. Em meio a uma sequência em que deveríamos estar atormentados com o destino das crianças em um campo de guerra.

Foto: Searchlight Pictures

Fica a sensação constante de que, apesar da provocação inicial, o restante do roteiro de Jojo Rabbit se acovarda muito para sair desta zona de comicidade e aderir a aspectos realmente sórdidos do tema que apresenta. De alguma forma as crianças todas seguem sendo o elemento mais atento e sério de toda a obra.

Bom

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