CRÍTICA | Turma da Mônica: Laços

Direção: Daniel Rezende
Roteiro: Thiago Dottori
Elenco: Giulia Benitte, Kevin Vechiatto, Laura Rauseo, Gagriel Moreira, Rodrigo Santoro, Monica Iozzi, Paulo Vilhena, entre outros
Origem: Brasil
Ano: 2019


Durante as décadas de 1980 a 2000, eram comuns os lançamentos de filmes infantis nacionais. Quase todo ano havia a estreia de um longa da Xuxa ou dos Trapalhões, por exemplo, que exerciam papel fundamental na industria audiovisual voltada para as crianças, ainda que o valor de produção e os roteiros fossem duvidosos. De lá pra cá isso mudou, abrindo espaço para obras teens ou voltadas para jovens adultos. Dentro desse contexto, Turma da Mônica: Laços parece chegar aos cinemas em um ótimo momento, suprindo uma demanda evidente no mercado, mas dessa vez com valores que saltam aos olhos.

Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão são os maiores ícones da cultura pop nacional. Criados em 1960, desde então têm conquistado gerações com suas aventuras pelo Bairro do Limoeiro, marcando a lembrança de grande parte dos brasileiros. Com o tempo os quadrinhos clássicos ganharam renovações, variações e adaptações, sempre muito respeitosas a criação original de Mauricio de Sousa. Curiosamente, Turma da Mônica: Laços é o primeiro longa-metragem live-action baseado na franquia, mais precisamente na aclamada graphic novel homônima dos irmãos Vitor Cafaggi e Lu Cafaggi, que se aprofunda nas relações de amizade entre os quatro protagonistas.

Na trama, Floquinho, o cachorro de Cebolinha (Kevin Vechiatto), é sequestrado por um homem misterioso, chamado pelas crianças de “Homem do Saco”. A turminha então se une e parte em uma jornada para trazer o cãozinho verde de volta para casa. Uma premissa que pode parecer clichê, a principio, mas que sabe explorar suas temáticas de forma bastante competente.

Foto: Paris Filmes / Downtown Filmes

Cada personagem apresentado possui um medo ou defeito que terá de superar ao longa da jornada. Magali (Laura Rauseo), por exemplo, em determinado momento tem que deixar de lado a sua fome incontrolável para cumprir com sua parte no plano, já Cascão (Gabriel Moreira) se vê obrigado a enfrentar seu maior vilão: a água. O mesmo acaba acontecendo com Mônica (Giulia Benite) e Cebolinha, mas guardarei essa informação para não estragar eventuais surpresas. Cada um deles amadurece com ao longo da narrativa.

É perceptível o carinho com que o diretor Daniel Rezende (Bingo: O Rei das Manhãs), que é grande fã dos quadrinhos da turminha, conduz sua obra. Há uma clara influência de aventuras coming-of-age como Os Goonies (1985) e Conta Comigo (1986), por exemplo. Suas composições cênicas parecem pensadas para cada detalhe. Os cenários, figurinos e elementos cênicos são fofos - como devem ser - e coloridos, remetendo aos anos 1960, do jeito que é visto nas revistinhas. Aqui, há espaço para uma paleta de cores fortes, que são marcas registradas de cada personagem. Uma adaptação que não apenas se mantêm fiel a publicação original, como resgata uma nostalgia emocionante em qualquer admirador.

O roteiro de Thiago Dottori (VIPs) entrega diversas referências e easter eggs do universo criado por Mauricio, inclusive abrindo possibilidades para o futuro da franquia nos cinemas. Para quem já conhece bem os personagens, é divertido identificar alguns momentos engraçados pelo filme, que vão desde os protagonistas se descobrindo sem sapatos - com exceção de Cebolinha -, a menção de outros núcleos, além da aparição de alguns personagens queridos como o Titi, o Xaveco, a Cascuda, o Jeremias, o Quinzinho, o Papa-Capim. Temos ainda uma bem-vinda aparição especial - à la Stan Lee - do próprio Mauricio de Sousa.

Fotos: Paris Filmes / Downtown Filmes

Ainda sobre o trabalho de Rezende, é louvável o trabalho realizado na escolha e direção de elenco, já que muitos deles nunca haviam atuado antes. Há aqui a sensibilidade de não esquecer de que são crianças em cena, causando uma empatia quase imediata no espectador. Laura Rauseo entrega toda a meiguice e doçura da comilona Magali, Gabriel Moreira a insegurança do Cascão, Kevin Vechiatto fala "elado" e "plotagoniza" momentos emocionantes, já Giulia Benite é a Mônica perfeita, a dona da rua, invocada e cheia de personalidade.

No elenco adulto temos participações especiais bastante interessantes, como Monica Iozzi (A Comédia Divina) no papel de Dona Luísa, mãe da Mônica, e Paulo Vilhena (Como Nossos Pais) como Seu Cebola, o pai do Cebolinha. Mas quem de fato rouba a cena é Rodrigo Santoro (Westworld) no papel do Louco. O ator faz um ótimo trabalho de expressão corporal para passar o tom lúdico do personagem, ao mesmo tempo em que o humaniza, fazendo questionamentos essenciais sobre a existência. Sua participação é essencial para o desenvolvimento da história, nos fazendo enxergar o personagem por outro viés e desejando que ele tivesse mais tempo em tela.

Curiosamente, o único aspecto negativo no filme é a montagem, que às vezes apresenta momentos demasiadamente extensos, especialmente em cenas dramáticas ou de suspense. No mais, tecnicamente falando, ainda tempos a trilha sonora que conduz a emoção nas cenas, contando ainda com uma música original do cantor e compositor Tiago Iorc.

Foto: Paris Filmes / Downtown Filmes

Turma da Mônica: Laços respeita a essência de seus personagens e de sua cultuada obra original. Um longa-metram doce, divertido e emocionante, que soa como se estivéssemos encontrando velhos amigos novamente. É certamente um novo tesourinho do cinema brasileiro, que mostra como é/era bom ser criança.

Ótimo

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