CRÍTICA | As Panteras

Direção: Elizabeth Banks
Roteiro: Elizabeth Banks
Elenco: Kristen Stewart, Naomi Scott, Ella Balinska, Elizabeth Banks, Patrick Stewart, Djimon Hounsou, entre outros
Origem: EUA
Ano: 2019


Na virada do século, Hollywood escalou um elenco de peso para fazer com que As Panteras (2000) homenageasse a série homônima que foi ao ar nos anos 1970. Quem viveria os "Anjos de Charlie" eram ninguém menos que Cameron Diaz (Vanilla Sky), Drew Barrymore (Como Se Fosse a Primeira Vez) e Lucy Liu (Kill Bill: Volume 1), três das maiores atrizes da época. Bill Murray (O Fantástico Sr. Raposo), interpretou o “tenente” das garotas, John Bosley, mas não retornou para a continuação, As Panteras: Detonando (2003). A verdade é que, naquele tempo, o longa não caiu no gosto do grande público, fazendo com que a franquia fosse enterrada até então.

Elizabeth Banks (Brightburn: Filho das Trevas) veio para mudar isso, fazendo memorável justiça com sua versão de As Panteras (Charlie’s Angels). Nada mais justo em tempos em que tanto o público como setores da indústria cinematográfica cobram por representatividade e protagonismo feminino.

A trama segue Sabina Wilson (Kristen Stewart) e Jane Kano (Ella Balinska) em uma missão que pretende desmascarar um empresário que quer vender um dispositivo de fornecimento elétrico que, se colocado nas mãos erradas, pode se tornar uma arma muito perigosa. Ciente do problema, Elena Houghlin (Naomi Scott) é ignorada pela corporação e chega até a agência das Angels. Por sua mente brilhante e conhecimentos em programação, acaba sendo convidada a integrar o trio.

Foto: Sony Pictures

É preciso ter em mente que a obra não se trata de um remake do seriado ou dos filmes do começo dos anos 2000, mas sim uma releitura que dá a ideia de continuidade às histórias vivida pelas primeiras agentes. Aliás, diversas são prestadas às Panteras originais.

O anúncio de que um novo longa seria produzido deixou parte do público e da crítica preocupados. O medo de mais um fracasso na franquia era maior do que qualquer hype. Felizmente trata-se de uma produção que foge do entretenimento fácil, cheio de clichês e falas prontas. Não há a necessidade de querer ser mais um filme com protagonismo feminino, algo que ficou evidente em sua campanha de divulgação.

Com isso, interessante fazer um comparativo com filmes lançados recentemente e que partem de uma premissa similar, como Mulher-Maravilha (2017) e Capitã Marvel (2019). Em termos de roteiro, as falas são menos truncadas e artificiais, buscando fugir de frases prontas de militância da internet, por exemplo. As Panteras expõe as dificuldades enraizadas pelo machismo, mas de uma maneira menos didática e muito mais real, aproximando, principalmente mulheres, às personagens.

Outro ponto de conexão com o público é o fato de que, mesmo sendo mulheres fortes, as três têm um passado, sentem medo, expressam afeição e admiração. Os paralelos traçados destacam muito mais as vivências machistas vividas por mulheres no ambiente corporativo: são interrompidas, se autossabotam, sentem que precisam dar conta de tudo para provar seu valor. Essas características a humanizam, tornando-as personagens possíveis fora da tela. Exceto pela parte dos socos, talvez. 

Foto: Sony Pictures

O entrosamento entre as protagonistas dá ao filme dinamismo e fluidez. E apesar das explosões e embates tensos com seus adversários, elas se apresentam ao espectador de forma espontânea e divertida. Nesse ponto, os alívios cômicos são muito bem aproveitados e não apelam para provocar o riso, que vem fácil. Surpreendentemente, Kristen Stewart (Café Society) é o brilho do longa nesse sentido, especialmente aos que reclamam de suas “atuações inexpressivas e fracas”. Ela faz caras, bocas e é dona das sacadas cômicas mais engraçadas. Naomi Scott (Aladdin) também se destaca na comédia, mas sua personagem se desenvolve e ganha confiança com o passar do tempo, ganhando generoso desfecho.

A britânica Ella Balinska (A Modern Tale) é a racionalidade no grupo, e possui um espírito de liderança muito forte. Sua personagem retrata bem os medos e anseios das mulheres negras, parcela que tem menos espaço no mercado de trabalho e que leva muito mais tempo (até do que mulheres brancas) para alcançar bons cargos. A pressão que elas tendem a sentir é dobrada. Essa noção vai se desconstruindo em Jane, que aos poucos se permite uma trégua, a amizade e até mesmo a paixão.

Além de assinar a direção e a produção, Banks também interpreta a nova Bosley, ganhando bastante tempo de tela. Sua atuação caricata, com frases irônicas sem perder a classe são mercantes, e se complementam com a atmosfera criada pelas outras agentes.

Há quem diga que em filmes de ação as mulheres pegam as cenas “menos pesadas”. Aqui elas são extremamente potentes, bem coreógrafas e bem dirigidas, fazendo o público vibrar. Isso sem contar a direção de arte, com figurinos formidáveis (as cenas no closet são de dar inveja em muita gente) que são destacados por uma fotografia de paleta vibrante, mega colorida e cheia de neon. 

Foto: Sony Pictures

Com curadoria de Ariana Grande, a trilha sonora é toda cantada por mulheres. Além da música tema “Don’t Call Me Angel”, uma colaboração com Miley Cyrus e Lana Del Rey, participam também Normani, Nicki Minaj, Kim Petras, Victoria Monét e Anitta. Sim, ela mesma. Aliás, os fãs brasileiros vão adorar algumas passagens, já que o Brasil é citado diversas vezes pelo roteiro, inclusive a cena de abertura se passa no Rio de Janeiro.

Esqueça a rivalidade entre mulheres para saber quem fez o melhor trabalho. Ou esqueça plots que abordem o amor romântico ou a missão de ganhar o coração de um homem. As Panteras passa no Teste de Bechdel e mostra que é possível ter explosão, ação e um entretenimento inspirador. Parece que, agora sim, as mulheres ganharam o seu "Velozes e Furiosos" como mereciam.

PS: O filme tem várias cenas pós-créditos com participações especiais. Fique até o fim.

Ótimo

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