CRÍTICA | Dor e Glória


Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar
Elenco: Antonio Banderas, Penélope Cruz, Asier Etxeandia, Nora Navas, entre outros
Origem: Espanha
Ano: 2019


Os apaixonados por cinema certamente aceitariam um convite para viajar pelo íntimo do cineasta Pedro Almodóvar (A Pele Que Habito). Para o espanhol, Dor e Glória (Dolor y Gloria) é o seu trabalho mais pessoal, já que o protagonista vivido por Antonio Banderas (A Vida em Si) representa uma espécie de alter ego, que confessa suas alegrias e tristezas para o público e traz referências de seus mais icônicos trabalhos, seja por elementos estéticos ou pelo enredo propriamente dito.

A narrativa apresenta o espectador a Salvador Mallo (Banderas), um diretor de cinema em fase decadente, com problemas físicos e psicológicos, como ansiedade e depressão. Isolado, ele relembra sua vida e carreira desde a infância na cidade de Valência, nos anos 1960. Após a restauração de um de seus filmes mais conhecidos e de um convite para um debate com o público, o protagonista procura seu ator principal, Alberto (Asier Etxeandia), para fazer as pazes, depois de ficarem brigados por 32 anos. O reencontro acaba fazendo Salvador experimentar heroína pela primeira vez, e sua experiência com a droga gera momentos de reflexão que o fazem buscar uma razão para seguir adiante.

Almodóvar opta por um roteiro não-linear e auto-referencial. O protagonista expressa sua paixão pelas artes, por um antigo amor e por sua mãe. Menções claras a sucessos do cineasta como Tudo Sobre Minha Mãe (1999), Má Educação (2004), ou mesmo A Pele Que Habito (2011). Da mesma forma, as recordações servem como uma catarse, já que sente saudades dos tempos áureos e também das coisas simples da vida, como a liberdade e a contemplação do cotidiano. Hoje, o tempo fez as lembranças ficarem para trás, causa de sua tristeza e melancolia.

Foto: Universal Pictures

A figura de sua mãe, em particular, tem grande importância em Dor e Glória, e fica a cargo de Penélope Cruz (Todos Já Sabem) encarnar Jacinta, a mãe de Salvador (e por que não, de Almodóvar?), sempre muito afetuosa e preocupada em dar o melhor ao filho. Nesse ponto, o trabalho de montagem é excepcional, já que a obra faz transições de cena belíssimas através do tempo, por vezes misturando realidade com ficção e brincando com a metalinguagem proposta pela produção. É o cinema dentro do cinema, estudando as memórias de seu realizador e entregando ao público o que de melhor poderia se esperar dele, sempre tão sensível e vibrante.

E por falar e vibrante, as cores retratadas em tela fazem curiosa oposição às reações de angústia e melancolia de Salvador. Em cada quadro um significado, uma interpretação, em que o espectador faz um passeio pelos cenários e se insere naquele contexto e na dura realidade do protagonista, que se encontra com um bloqueio criativo, desesperado e desmotivado para seguir em frente. É somente a partir do reencontro com Federico (Leonardo Sbaraglia), sua antiga paixão, que vê sua criatividade e disposição se renascerem.

É preciso também destacar o trabalho de Banderas, que utiliza de características físicas e traços da personalidade de Almodóvar para compor o personagem. O cabelo bagunçado, o culto às lembranças e a busca por algo positivo que possa ser inserido no momento presente. Partindo do principio que o próprio apartamento do diretor serviu de cenário para a moradia de Salvador, é fácil confundir um com o outro, ainda que Almodóvar afirme que não se trata de uma autobiografia.

Foto: Universal Pictures

Um filme sensível, provocante e libertador. Assim poderia descrever Dor e Glória, uma bela história, escrita e dirigida por um ser maduro e que conhece sua história e filmografia como ninguém mais poderia. Almodóvar ainda tem muito a nos oferecer.

Ótimo

Comentários